segunda-feira, 28 de abril de 2014

Leituras poéticas - Vasco Graça Moura, la malinconia, "schubert, D 960 - 2."

Jean-Baptiste-Camille Corot - Verja a la Sombra de los árboles

olha a sombra dos álamos: perpassa
nas águas do espelho desolado, quando o vento
se enrola assim na roda de fiar.
escuta lá fora o realejo das misérias do inverno.

quem passou por aqui? quem veio de tão longe?
quem cala a cotovia nas lavras da manhã?
que lampejo entrelaça o lilás e o luto?
em que fala amorosa nos dilaceramos?

a musa ensimesmada debruça-se, pousando
a sua mão inquieta no torpor das pálpebras.
a noite cai. o nó do corpo e alma desatou-se
e há nomes que se apagam na casca de uma árvore.

                                               (Vasco Graça Moura, la malinconia, "schubert, D 960 2")

A sonata para piano n.º 21, D 960, de Schubert solicitou a VGM, no conjunto denominado la malinconia dois poemas ou, talvez, um poema em duas partes. Seleccionámos o segundo poema, ou a segunda parte do poema, para uma leitura. Quando pensava no que iria escrever hoje no Kyrie Eleison, abri um velho bloco de apontamentos que se iniciava com uma citação de Heidegger, uma citação talvez não literal: a única presença autêntica do artista é a sua presença na obra: o desaparecimento da pessoa na obra. Talvez o maior tributo que se possa prestar a VGM será dizer que o seu desaparecimento físico é apenas a consumação daquilo que ele fez de melhor durante toda uma vida: desaparecer enquanto pessoa na sua obra. Só esse desaparecimento tornou possível que o artista - e não a pessoa empírica - se tivesse tornado presente na obra. Ler um pequeno poema é encontrar não a pessoa mas o artista nessa parte da sua obra.

Uma linha de leitura possível será ver o poema composto por três momentos estruturais: o da intimação, o da interrogação e o da revelação. O leitor é intimado, na primeira estrofe, a dar atenção à realidade, ao que está fora de si, ao mundo. É o momento de confrontação com a poeticidade do real, com o espectáculo da sua fabricação que se abre à experiência sensível do leitor. Esta intimação, expressa no olha e no escuta, significa que o artista possui a clara consciência da distracção essencial de todo o leitor, distracção relativa à fábrica do mundo. É preciso olhar a sombra dos álamos / (que) perpassa nas águas do espelho desolado, quando o vento / se enrola na roda de fiar. É necessário escutar lá fora o realejo das misérias do inverno. Não se pense, porém, que esta realidade a que todos devemos prestar atenção é o real quotidiano. Não. Trata-se duma realidade plástica - na verdade, uma realidade pictórica dada pelos três primeiros versos - e uma realidade musical, como se expressa no último verso da primeira quadra. Diz-nos, então, o poeta: atenção à forma e ao ritmo do mundo, abram, para eles, olhos e ouvidos.

Esta abertura à forma e ao ritmo da fábrica do mundo leva-nos não a uma constatação do real, nem ao exercício de um conhecimento fundado na evidência das intuições sensíveis. Olho e vejo, e sou tomado pela perplexidade. A intimação da primeira estrofe acaba na perplexidade perante o real, como se aquilo que não vemos nem escutamos fosse o segredo que se tece na fabricação do mundo. A perplexidade é a mãe da interrogação. Que estranha ordem recebe o leitor: olha e escuta para te enredares na perplexidade e abrires o espírito ao jogo da interrogação. O leitor é desse modo convocado a retornar a uma fase primitiva do seu desenvolvimento, ao tempo em que, criança, interrogava infinitamente as coisas. Homens e coisas - dados nos interrogativos quem e que - são motivo de interrogação. As acções e os acontecimentos não são evidências, mas trazem neles o perfume antigo do segredo gerador de dúvida e de inquietação. Homens e coisas fazem partem da fabricação do mundo. Essa constatação, contudo, apenas nos abre ao mistério.

O terceiro momento - dado na terceira estrofe - é o da revelação. Não a revelação de um leitor agora desperto pela intimação do poeta e conduzido na sua perplexidade à interrogação. A revelação só existe no poema e só é dada poeticamente: a musa ensimesmada debruça-se, pousando / a sua mão inquieta no torpor das pálpebras. Só a musa fechada sobre si vê o que é a secreta fonte do mistério. Ela necessita de um esforço, de colocar a visão. Por isso, ao debruçar-se, pousa a mão inquieta no torpor das pálpebras. A poesia olha para dentro de si e descobre o mistério que se revela no cair da noite, no desatar do nó que liga corpo e alma, nos nomes que se apagam na casca de uma árvore. É o mistério da transição, da metamorfose que tudo sofre sob o efeito do tempo. O tempo é o motor da grande fábrica do mundo. Esse tempo, que temos ilusão de prender nas células do calendário, é o causador de todas as metamorfoses e o pai de todas as perplexidades. A luz do seu mistério é tão intensa que só através da sombra poética o podemos olhar.