terça-feira, 22 de abril de 2014

Meditações Taoistas (20)

Francis Bacon - Man Kneeling in Grass (1952)

Se não exaltar os talentosos, o povo não compete.
Se não valorizar o luxuoso, o povo não rouba.
Se não mostrar o desejável, o seu coração não se perturba.
Lao Tse, Tao Te King, III

Vivia numa terra de cegos e de surdos, e toda a minha aprendizagem foi a da surda cegueira. Era com ela que abria o mundo diante dos meus passos, que lacerava a floresta para encontrar um caminho, que me fazia à estrada para chegar a outro lugar, rasgando horizontes e deixando para trás a sombra dos gestos, o odor da memória, a pólvora-seca do esquecimento. Ainda o punhal do desejo não se tinha cravado no peito e dilacerado a carne. Cantava na inocência dos dias, grato pela ordem do mundo, cantava o silêncio e as trevas, cantava a ignorância da voz e da luz.

Foi lenta a aprendizagem do desejo. Chegou sem que desse por isso. Uma mancha desenhou-se no coração. Primeiro, veio como se fora um ponto. Tocou-me e, lentamente, tornou-se superfície, alastrou na pele e criou raízes. A mancha era já uma pedra rugosa, que percutia nas entranhas e ressoava no fundo do espírito. Pela primeira vez ouvi. Os lábios desprenderam-se e a fala saiu em torrente. Do desejo nasceu o som e a fala, depois o sentido de todas as coisas ganhou uma nova floração. Quando, pela Primavera, o sangue correu de cada uma das chagas, os olhos abriram-se e pela primeira vez distingui a luz das trevas.

Agora que ganhara voz e descobrira os mil matizes o canto silencioso e exultante de outrora calara-se. Os passos tornaram-se pesados e tudo se aferia pelo vigor com que me inclinava o desejo. Tinha passado a fronteira, entrado numa estranha pátria de onde não há retorno. Inútil que o rei esconda as aparência luminosas do mundo. O pobre súbdito descobri-las-á por si mesmo e quanto mais sangrar a ferida da descoberta, mais luminosas lhe sorrirão. Perturbação, ó doce perturbação, grita o corpo embriagado pelo prazer e pela dor.

Então, perdido no emaranhado das ruas, mergulhado no lodo, cego pela luz, o coração treme e uma dúvida insinua-se lentamente. Sim, o coração está de novo perturbado. Tamanha embriaguez não lhe alivia a dor nem dissolve a dura pedra que lhe fere as entranhas. Um dia fecha os olhos e silencia as palavras. Sabe o que é luz e a cor, sabe o que é o som e o sentido, mas para além deles há um odor desconhecido. Ergue-se e retorna à floresta, abre um novo caminho e segue lentamente a pista que o novo perfume lhe indica. Ao longe, um trono de areia e mar espera por ele.