sábado, 12 de abril de 2014

O peso dos livros

Alexandre-Gabriel Decamps - The Bookworm

Um hábito e uma decisão acidental conjugaram-se para me devolverem à minha realidade. Como se teoriza desde Aristóteles, o hábito é uma segunda natureza. Está nesta minha segunda natureza uma paixão cultivada ao longo de décadas, a paixão de ler na cama antes de adormecer. Há quem tome indutores de sono, eu leio e depois fecho a luz e adormeço pacificado com o mundo e comigo. A decisão acidental foi de, por estes dias, ler o romance de Thomas Pynchon, Mason & Dixon. Comecei a lê-lo durante o dia, sentado à secretária. À noite, para cumprir o ritual da paixão e fazer jus à segunda natureza, peguei no livro e recomecei a leitura. A certa altura da página dei-me conta do peso do livro.

É disso que quero falar, do peso do livro. Não se trata de uma metáfora, mas de referência denotativa. Estamos no domínio da literalidade. Ora, chegado a certa altura da página e devido à inclinação do corpo, os olhos começam a espreitar por debaixo dos óculos de leitura e, em vez de ver letras claras e distintas, que me proporcionariam as evidências da trama romanesca, vejo sombras, hieróglifos que se desvanecem, uma névoa. Tento aconchegar os óculos, mas o estratagema não funciona. São demasiado estreitos. Resta-me, como sempre, erguer o livro um pouco, subtraindo-o ao apoio do corpo e segurando-o apenas com a mão. As letras definem-se, agrupam-se em palavras, estas em frases e assim a leitura chega à próxima página. Com o romance de Pynchon revelou-se, porém, uma outra realidade. Uma mão não chegava para suster o livro, precisava de duas. Ao usar as duas, descubro que, a partir de certa altura, canso-me ao segurar o livro.

Tomei então, uma decisão. Dividir os romances entre os que posso ler na cama e os que só posso ler sentado à secretária. O romance do Pynchon foi remetido para as leituras sentadas, enquanto elegia uma novela de Carson McCullers para ler antes de adormecer. Algo em mim, contudo, estava inquieto. A decisão fora um expediente para satisfazer uma paixão, mas representava uma derrota. A partir de agora sei que há romances que me estão vedados para leituras semi-deitado. Hoje de manhã, ainda não refeito da derrota, decido ir pesar o livro do Thomas Pychon e mais alguns que tenho aqui em lista de espera. Os resultados são assombrosos. Mason & Dixon, de Thomas Pynchon, 1,100 kg; Vida e Destino, de Vassili Grossman, 1,050 kg; A História Secreta, de Dona Tartt, 1,100 kg; A Piada Infinita, de David Foster Wallace, 1, 400 kg; As Benevolentes, de Jonathan Littell, 1,400 kg. 

Na verdade, eu já tinha, ainda que de forma inconsciente, antecipado a situação. Evitava confrontar-me com romances de muitas centenas de páginas, sob a desculpa de que não teria tempo para eles. E cada vez que comprava - para ler quando tivesse tempo - um desses pesos pesados da literatura, procurava saber se havia edição portuguesa para eReader. Por norma, não havia. Julgo que os editores estão mancomunados para me contrariem. Só editam ebooks de livros que pesam pouco e que qualquer mortal lê sem desconforto na cama ou no autocarro. Ora um livro que pesa mais de um quilo não é um livro, mas uma arma branca e uma ameaça à saúde pública. 

Eu sei que, em Portugal, sítio onde quase não se lê, toda a gente detesta ler em eReaders e ama desmesuradamente os livros, mexer no papel, o cheiro da tinta, enfim, tudo o que é acessório num livro. São absolutamente contra essas coisas modernas e, quem os ouvir falar, julga mesmo que, nesse amor pela tradição do livro, só estariam dispostos a trocar o livro de papel por rolos de pergaminho. Esquecem de dizer que não gostam mesmo é de ler e por isso não correm o risco de levar com um romance de 1,100 kg na cabeça ou deixar cair os 1,400 kg de As Benevolentes em cima do pé. Talvez aí descobrissem o peso dos livros.