quarta-feira, 2 de abril de 2014

O sentimento de liberdade

Maria Helena Vieira da Silva - Liberdade (1973)

De cada vez que leio estudos como este sinto-me ameaçado. Não é que tenha alguma coisa contra a ciência e a actividade de revelação que os cientistas fazem. Pelo contrário. De onde vem, então, a ameaça? Vejamos este exemplo. Os cientistas descobrem que há pessoas que não gostam mesmo de música, pois alguma coisa se passa com os seus neurónios. É certo que tudo o que fazemos e pensamos tem de estar em conexão com os nossos neurónios, mas sinto-me sempre como se eu fosse mais do que os meus neurónios, de que para além deles, ainda que ancorado neles, exista um qualquer coisa que se sobrepõe à base neuronal e, nessa sobreposição, afirma a sua liberdade. 

Que o meu gosto pela música seja apenas uma predisposição provocada por uma feliz combinação de neurónios deixa-me deprimido. E se a música é assim, todo o resto o será. A ameaça vem da irrisão que a ciência provoca na liberdade. Um dos problemas mais complexos que a ciência coloca ao homem não é a ameaça tecnológica, a criação de um mundo distópico devido às aplicações das ciências naturais. O grande desafio é o de não deixar morrer o instinto da liberdade perante o trabalho contínuo de revelação e de explicação com que a ciência desmonta o homem. Seja como for, a verdade é que as pequenas peças de Erik Satie que estou a escutar, enquanto escrevo isto, me dão grande prazer e, mais do que isso, me restituem o sentimento de liberdade que a ciência tanto gozo tem em me furtar.