sexta-feira, 11 de abril de 2014

Trocar de pósteres


Pertenço a uma estranha geração. Aos treze, catorze, quinze anos enchia as paredes do quarto com os pósteres da Fórmula 1, com os Tyrrell, os Lotus, os Ferraris, os Brabhan, os BRM ou os March que desfilavam pelo circo do início dos anos 70. Muitos de nós, porém, aos dezassete ou dezoito anos tinham substituído os fórmulas 1 pelos circunspectos retratos de novos ídolos, gente mais séria e fatal. Quem, como eu, foi maoísta, na sequência do 25 de Abril de 1974, não poderia deixar de ter exposto, na parede do quarto, esses novos deuses, Marx, Engels, Lenine, Estaline e Mao-Tse-Tung, os cinco magníficos cavaleiros da revolução ou do apocalipse. Esta troca de pósteres não foi um acidente pessoal. Correspondeu a um movimento geracional. Hoje em dia, em que a Fórmula 1 e os cavaleiros da revolução pouco me interessam, pergunto-me como é que a visão burguesa subjacente à paixão pelo automobilismo se metamorfoseou num radicalismo pró-proletário e numa visão política de aparência revolucionária?

Dizer que foi o 25 de Abril é não dizer nada. O 25 de Abril possibilitou a expressão desse radicalismo, mas muitos já estavam radicalizados antes. Estou convencido que, se Portugal se tivesse democratizado a seguir ao final da segunda guerra mundial, a generalidade dos esquerdistas nunca teria assumido posições políticas radicais. Provavelmente, muitos nunca teriam sequer militado politicamente. A militância política implica uma forma de estar e de compreender o mundo que choca com um certo espírito de independência e de liberdade que marcam a juventude. Isso foi-se tornando visível ao longo dos anos de democracia. A política atrai agora um grupo restrito de jovens, que, na generalidade, vêem nela uma espécie de carreira.

Mas o factor central que conduziu uma geração a trocar de pósteres, colocar os teóricos e práticos do marxismo no lugar dos ídolos da Fórmula 1, foi a guerra colonial. Por volta dos quinze ou dezasseis anos, os rapazes confrontavam-se, num horizonte nada longínquo, com a possibilidade de ir combater e morrer em África. Este facto criou em muitos de nós uma consciência política que não teria sido possível de outra maneira. Quem viveu esses tempos compreende facilmente como essa preocupação da parte masculina da juventude se transmitia facilmente à parte feminina. Foi o negro e inescapável horizonte da guerra que levou uma geração a questionar a ordem política, moral, social e económica do país. Foi a incompreensibilidade do conflito que radicalizou jovens sossegados e pacíficos. Foi o peso simbólico das armas que levou uma geração a trocar de pósteres.