quinta-feira, 17 de abril de 2014

Uma dificuldade estrutural

Vieira da Silva - 25 de Abril de 1974

O impedimento de um representante da Associação 25 de Abril discursar, nas cerimónias da Assembleia da República para comemoração dos 40 anos da Revolução, acaba por ser um sintoma de dois problemas que a nossa democracia sofre. Dois problemas que, apesar de diferentes, estão intimamente ligados. Quarenta anos depois, a própria Assembleia da República - ou uma parte dela, neste caso a maioria conjuntural - tem dificuldades em lidar com a origem do regime. A retórica liberal com que a direita hoje em dia se enfeita casa mal com um regime democrático que existe porque os militares derrubaram uma ditadura. Na verdade, a própria direita, que governou longos anos na democracia saída do 25 de Abril, nunca se conformou com a legitimidade do regime. Apesar de ser uma das protagonistas principais do sistema democrático, o seu coração nunca esteve com os acontecimentos ocorridos há 40 anos. 

Isto liga-se ao segundo problema. A direita portuguesa - com poucas e muito honrosas excepções - esteve sempre do lado da ditadura e do regime do Estado Novo. Não havia, como não há, liberais em Portugal. O que sempre existiu foi uma direita castiça, por vezes ultramontana, que oscila, conforme a oportunidade do momento, entre soluções autoritárias e um liberalismo superficial. Um liberalismo que só será político se tiver mesmo de ser e só será económico se não puder ser de outra maneira. Na verdade, a direita sempre achou preferível o paternalismo autoritário e o condicionamento industrial. A não abertura de uma excepção nestes 40 anos da Revolução para um militar discursar, por mais justificações civis e liberais que sejam mobilizadas para fundamentar esse impedimento, significa apenas que a direita portuguesa continua a lidar com muita dificuldade com o regime democrático e a sua origem.