quarta-feira, 11 de junho de 2014

Caixa de Pandora

Jackson Pollock - War (1947)

Custa-nos a crer que somos governados por fanáticos e extremistas. Não me refiro apenas ao caso português, mas ao Ocidente em geral. É um fanatismo de novo tipo, embora também se julgue predestinado pela História. Refiro-me aos governos que pretendem transformar toda a sociedade numa espécie de mercado e, mais do que isso, julgam possível - pois esse seria o sentido da História - impor, mundo fora, regimes democráticos e sociedades de mercado. Esse fanatismo conduziu a que George W. Bush abrisse uma guerra insensata no Iraque, conduziu ao fervor acrítico perante as primaveras árabes. O resultado desse fanatismo e as consequências de tamanha irresponsabilidade política e civilizacional são aquelas que agora começam a tornar-se óbvias. 

Radicais islâmicos tomam conta de parte do Iraque, estão presentes na Síria e ameaçam a própria Europa (ver o Público). Mais do que isso. Apesar de alguns reveses, o radicalismo islâmico tem uma enorme base de recrutamento e uma disponibilidade para a guerra que não encontra paralelo em qualquer outro lado. O fanatismo ocidental, ao intervir onde não lhe dizia respeito, abriu uma autêntica caixa de Pandora. Na verdade, nunca compreendeu o que move parte do mundo muçulmano, pois não consegue perceber que nem tudo na vida se resume ao mercado livre e às agências de rating. Este fanatismo incendiou muitos países muçulmanos, e, depois, abandonou populações inteiras à mercê do radicalismo islâmico. Quando o incêndio chegar à Europa - já faltou mais e, há muito, que Portugal e Espanha são reivindicados como territórios muçulmanos - é muito possível que não estejamos preparados e que os amigos americanos estejam cansados de conflitos - que atearam - e nos entreguem também à nossa sorte. Depois, abrem todos muito a boca por causa da vitória da senhora Le Pen. É o que dá confiarmos os nossos governos a extremistas.