quinta-feira, 5 de junho de 2014

Estranha patologia

Salvador Dali - La imagen desaparece (1938)

Um texto novo a intercalar nos cadernos do esquecimento provenientes do meu antigo blogue averomundo.

Sofro de estranha patologia. Não é congénita nem apareceu subitamente. Com o passar do tempo, fui olhando para mim com mais vontade de rir. Como pode um ser humano, dotado de um módico de racionalidade, dar relevo às pretensões do seu ego? Melhor, do seu pequeno ego, pois todo o ego, pelo facto de o ser, é pequeno. Esta doença, que foi semeando metástases em todo o meu ser, é o pior que pode calhar em sorte. Torna-nos insensíveis para os horríveis sofrimentos dos egos dos outros. Sim, há gente por aí que sofre terrivelmente. O ego incha, incha, e o mundo em vez de reconhecer a virtuosa superioridade de tão avantajado ego nem repara, passa ao lado, contraria a supina excelência. E o presumido quase-deus sofre, grita, urra, ulula, tem síncopes, desmaios, fanicos, chiliques, estados de quase-morte. Não pára de esbracejar e está sempre apto, apesar da terrível dor que lhe corrói as entranhas, para tornar o mais prazenteiro dos locais numa antevisão do inferno. E eu, despido do mais leve resquício de humanidade e incapaz de sentir qualquer compaixão por gente tão sofredora, rio-me. Rio-me e peço aos deuses que me preservem da hubrys, esse estranho vírus que se propaga à velocidade da luz sempre que os seres humanos têm de conviver uns com os outros. Peço-lhes que me preservem no ridículo que me acho.