domingo, 15 de junho de 2014

Meditações Taoistas (21)

Nicanor Piñole - Subindo a Montanha (1918)

O que pratica a via diminui a cada dia.
Diminuindo, chega ao não-agir.
Ao não agir, nada há que não se faça.
Lao Tse, Tao Te King, XLVIII

Quando era novo, levado pela inconstância do espírito e pela ordem do mundo, ele pensou que o essencial seria, a cada dia, aumentar, tornar-se cada vez maior, afirmar a excelência que a vida teria posto à sua disposição. Como qualquer outro, via na acção o caminho para a grandeza. Muitas são as formas como essa grandeza chama os homens e os leva para um caminho que ela mesma oculta aos olhos daqueles que seduz. Uns abandonam o mundo e as suas ilusões para, escondidos em algum cenóbio e em nome de um Deus, procurarem a glória da sua grandeza. Outros mergulham no mar agitado da acção e, falando em nome dos pobres e dos humilhados, alimentam, no mais íntimo e obscuro de si mesmos, a esperança de se tornarem heróis. A grandeza é um demónio vicioso e astuto.

Nem todos, porém, trazem no centro de si o imperativo do crescimento. Se nos primeiros tempos, o entusiasmo ainda os atira para o fulgor da busca da glória, logo um mal-estar toma conta deles e um vazio cresce no fundo da alma. Uma voz – sim, uma estranha voz inarticulada – começa a sussurrar. Se não lhe dão ouvidos, ela grita, distribuindo imperativos a cada hora que passa. Não, não coloca questões, não se dirige à razão, mas fala para os instintos e, através deles, para cada célula do corpo. Muda de caminho! Mas eu quero crescer, responde o interpelado. Diminui! Torna-te pequeno! É isso que espero de ti.

Não posso trair expectativas e esperanças, pensou. Como abandonar esse peso, o sonho da grandeza, e frustrar os que precisam de mim? Talvez por isso Jacob tenha, um dia, lutado com o anjo. Os dias, porém, traziam cada um a sua humilhação e, com a passagem dos anos, da grandeza esperada já pouco restava. O caminho tinha começado numa estranha encruzilhada, onde ele queria e não queria entrar pela senda que era a sua. Os seus planos dissolviam-se na areia e, em muitas noites, pensou que era ainda menos que o mais ínfimo grão de areia. Contra vontade, começou a diminuir. Quando chegava a madrugada, ainda o sonho de glória o animava, mas a noite quase o reconciliava com a sua crescente pequenez. Exausto pelo conflito, abre a mão de todos os sonhos e, perante a montanha mais elevada, grita: venceste, montanha. Apenas quero diminuir, ser, a cada dia que passa, mais pequeno e esperar que venha a morte e o meu nome seja esquecido. Nessa noite não foi atormentado pelos sonhos. Quando o dia chegou tudo era novo e estava no lugar que era o seu.