quinta-feira, 19 de junho de 2014

No país do eu acho que

Giorgio de Chirico - Le cerveau de l'enfant (1914)

Um texto novo a intercalar nos cadernos do esquecimento provenientes do meu antigo blogue averomundo.

Tentar uma discussão racional em Portugal é um exercício fútil. Só cremos em duas coisas: no eu acho que e no princípio de autoridade. Somos uma república do eu acho que, mesmo que esse achar que esteja em contradição com a mais nítida evidência racional. E aqueles que acham que, i e, todos nós, só se vergam a uma opinião contrária ao seu achar que se esta for emitida por uma autoridade – e apenas enquanto a autoridade for tida, pelo nossos interesses pessoais, como autoridade. A única coisa que dobra a nossa valentia de achadores que é o medo infundido pela autoridade. Autonomia do pensamento, exercício crítico da razão, análise das ideias a partir de princípios e regras claras são coisas que nos incomodam e estragam o nosso brilhante eu acho que, eivado de sentimentos e de profundas convicções fundadas na milenar prática do achar que e, não esquecer, do medo perante o magister dixit. Em Portugal, não se discute nada seriamente, apenas atiramos achos que à cabeça uns dos outros.