quarta-feira, 25 de junho de 2014

O lago tenebroso

Wifredo Lam - Auto-retrato (1938)

As selfies são longínquas herdeiras do exercício pictórico do auto-retrato. Longínquas não no tempo, mas na intencionalidade. O auto-retrato está ligado a um cru - por vezes, cruel - processo de auto-conhecimento mediado pela técnica pictórica. A selfie é um divertissement pós-moderno cuja função é a glorificação do pequeno ego do retratado, um ego que se partilha para que, ao tornar-se parte do domínio público, seja confirmado na glória da existência. O auto-retrato na pintura é, muitas vezes, sóbrio e sombrio, enquanto a selfie depende, quase sempre, de uma instantaneidade galhofeira, como se ela fizesse parte de um processo de ocultação daquilo que o ego quer esconder de si mesmo. Não haverá coisa no mundo mais repelente que um auto-retrato de nós mesmos, um auto-retrato que fosse a nossa mais completa revelação. Por mais farisaica que seja a consciência, não há quem possa suportar ver-se tal como é. As selfies fazem parte da cortina com que cobrimos perante nós e os outros o lago tenebroso que se esconde no fundo de cada ser humano.