sexta-feira, 27 de junho de 2014

Seguro e Costa


Vale a pena, a propósito da luta pela liderança dos socialistas, retomar o diagnóstico da política feito por Nicolau Maquiavel. A política é a luta pela conquista e manutenção do poder. O resto – servir o povo ou a comunidade – só se liga ao fenómeno político por acidente. Tem relevo apenas se contribuir para essa conquista e manutenção do poder. É a partir destas considerações que deveremos ler o que se passa no PS.

António José Seguro laborou, durante muito tempo, num extraordinário equívoco. Pensou que o poder lhe cairia nas mãos sem que ele tivesse de lutar por ele. Bastaria estar sentado no Largo do Rato e de fazer uns discursos inócuos e sem qualquer compromisso para que, devido ao programa de austeridade, o poder lhe caísse nos braços. Tinha chegado a sua vez, pensou. Em democracia é verdade que o poder se conquista também porque o adversário o perde. Mas não basta que este o perca. É preciso lutar por ele. As eleições europeias mostraram, porém, que o governo estava longe de ter as legislativas de 2015 perdidas. Pelo contrário, revelaram que a maioria tinha conseguido, apesar do péssimo resultado, suster os estragos. Seguro equivocou-se. Ninguém está fadado para o poder. O exercício do poder, algo que pertence à esfera da acção, conquista-se activamente. Quem quiser dedicar-se à contemplação que entre para um mosteiro e aguarde a glória dos altares e não a do espaço público.

Uma segunda nota prende-se com o caso de Seguro e Costa falarem pouco, no conflito que os opõe, das soluções para o país. Há várias razões para isso, mas a fundamental reside no simples facto de que não é isso o que está em questão, a não ser de forma acessória. Como em qualquer partido político, sem excepção, o que está em jogo é a capacidade do seu líder em levar o grupo ao poder. A disputa no PS não diz respeito a programas, ideias, visões para o país ou concepções sobre a Europa. A única coisa em jogo é determinar, entre Seguro e Costa, quem está em melhores condições para ganhar as legislativas. O resto faz parte dos jogos florais que sempre acompanham este tipo de conflitos. Antigamente, os inimigos políticos envenenavam-se. Hoje, devido ao Estado de direito, os inimigos são apenas adversários que trocam galhardetes de forma a deixar o outro em circunstâncias mais difíceis e menos competitivas.

Não nos equivoquemos. É isto que está em jogo no PS. E isso acontece não porque os socialistas sejam especialmente depravados, mas porque essa é a natureza das coisas em qualquer organização política que luta pelo poder.