quinta-feira, 3 de julho de 2014

Apologia do silêncio

Odilon Redon - O silêncio

Um texto novo a intercalar nos cadernos do esquecimento provenientes do meu antigo blogue averomundo.


É no Fédon, salvo erro, que Platão nos diz que o exercício da filosofia não é outra coisa senão aprender a morrer e a estar morto. Uma das virtudes de estar morto é o silêncio. De certa maneira, a filosofia será uma aprendizagem do silêncio. É curioso que esta disciplina, ao tomar a configuração que ainda hoje reconhecemos nela, tenha colocado as coisas deste modo. A curiosidade deriva de a tradição  filosófica se ter afirmado pelo exercício abundante do logos, pela loquacidade mais extrema. O silêncio dos mortos e dos que aprendem a morrer foi substituído pelo ruído dos argumentadores. Se isto é assim, nesse local onde o exercício da restrição dos desejos e da palavra eram o ideal regulador, o que dizer do espaço público? Aí a cacofonia é generalizada. O uso abundante da palavra, o prolixo dos discursos, a gritaria desordenada mais do que factores do esclarecimento (enlightenment) são origem da extrema confusão. Todos nós, a começar por mim, deveríamos exercitar a virtude monástica do silêncio. Quando nos ocorresse uma ideia luminosa, o melhor mesmo seria omiti-la, poupar os outros à excelência da nossa imaginação ou do nosso intelecto. O problema, porém, é que fomos educados na tradição platónica. Quando falamos no aprender a morrer e a estar mortos, quando suspeitamos que o silêncio é uma virtude cardinal, aquilo que queremos é falar, falar, falar.