segunda-feira, 14 de julho de 2014

Eugène Delacroix - A liberdade guiando o povo

Eugène Delacroix - A liberdade guiando o povo (1830)

Delacroix pinta A liberdade guiando o povo como forma de participação na revolução de 1830. Por vezes, somos levados a pensar que a fonte inspiradora é a Revolução de 1789, iniciada precisamente a 14 de Julho com a tomada da Bastilha. Não é. Passaram mais de 40 anos e poderíamos discutir a relação política entre as revoluções de 1789 e de 1830, ou a questão estética da emergência do romantismo na pintura e o corte com o classicismo. Gostava de me desviar desses caminhos e fixar-me num triângulo que compõe o drama presente neste quadro. Esse triângulo revela, talvez de forma inesperada para os amantes das revoluções, um estranho sentido presente em todas elas. O triângulo é composto por três figuras, o povo, a liberdade e a morte. O povo é representado em armas e em estado de exaltação - de transe revolucionário -, a liberdade - deixemos de lado a vexata quaestio da interpretação simbólica dos seios desnudados - transporta uma bandeira nacional e emerge como a instigadora do povo em exaltação. Os mortos, esses não são outra coisa. No abandono a que a morte os condena, eles surgem aos nosso olhos como o único resultado do casamento entre o povo e a liberdade. Será, na verdade, o quadro de Eugène Delacroix uma apologia da revolução, um encómio do povo em armas? Quem não se deixar arrastar pelo entusiasmo resultante da poderosa combinação da liberdade e do povo, quem se entregar a uma lenta meditação do quadro, acaba por descobrir que a revolução - essa combinação da liberdade e do entusiasmo popular - tem apenas como sentido a morte. Olho para o quadro e o que vejo? Vejo que toda a revolução é um exercício niilista a que os homens, cegos pelo brilho da liberdade, se entregam. Mas o mais estranho, no quadro, não é a sua possível leitura contra-revolucionária, a possibilidade de o ler numa perspectiva conservadora. O mais enigmático do quadro é a equação entre liberdade e morte. Eu sei que esta é uma meditação melancólica para um dia como o de hoje, o dia em que todos os corações deveriam erguer-se para comemorar o reino da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Temo, porém, que essas palavras apenas escondam o trabalhar incansável da velha ceifeira.