sábado, 19 de julho de 2014

O bombardeamento da ciência

Pablo Picasso - Guernica (1937)

A direita portuguesa, mesmo quando encarna em gente universitária ou vinda das áreas da cultura (há algumas excepções, claro) tem uma relação difícil, muito difícil, com áreas como a cultura ou o conhecimento. Se houve área em que as governações socialistas tiveram êxito, um êxito claro e do qual o país retirou amplos benefícios, foi a da ciência. Deve-se a Mariano Gago ter dotado o país de uma ampla rede de investigação científica, em diversas áreas. Digamos que houve uma democratização do acesso à prática científica e que essa democratização - que é sempre um alargamento social de uma elite cognitiva - trouxe reconhecimento para o país, deu-lhe áreas em que é possível transformar conhecimento em produtos para competir nos mercados globais e, nas áreas das humanidades, permitiu suprir graves carências nas áreas da edição e da tradução para português de autores fundamentais. Tudo isto é insuportável para uma direita que, no fundo e mesmo quando se traveste de liberal, nunca deixou de ser miguelista e ultramontana. Assistimos, com as avaliações dos centros de investigação encomendadas pela FCT, a um verdadeiro bombardeamento do emergente edifício da ciência portuguesa (Público). Parece que o objectivo é não ficar pedra sobre pedra da herança de Mariano Gago.