segunda-feira, 7 de julho de 2014

O direito ao apocalipse

Jorge Carreira Maia - Praia do Medão (Supertubos), Atouguia da Baleia (2014)

A experiência pela qual estamos a passar traz com ela uma percepção muito diferente daquela em que fomos educados. A fragilidade das instituições e de modos de vida era uma coisa que apenas existia nos compêndios de História ou na prédica religiosa. O homem comum, nascido no pós-guerra, tinha a impressão de que tudo tinha um carácter sólido, ao qual o tempo não tinha poder para erodir. A bondade das instituições apenas podia ampliar-se Mesmo quando se assistiu à queda do anterior regime ou à morte da experiência comunista no bloco de Leste, ainda qualquer consideração sobre a fragilidade das instituições e modos de vida humanos surgia, aos olhos do senso comum, como qualquer coisa distante, uma espécie de meditação teórica, ou uma consideração para utilizar em situação fúnebre. Agora, porém, observamos em directo - e sofremos no corpo - o desmoronar das nossas instituições, dos nossos modos de vida e dos nossos valores. Tudo o que parecia sólido se manifesta, nestes tempos, como construído em matéria frágil e com alicerces superficiais e enterrados em areia seca. Descobrimos que entre todos os direitos irrevogáveis apenas há um, do qual ninguém falou, que mantém a sua inalterável solidez, o direito a viver o apocalipse.