quarta-feira, 16 de julho de 2014

O ovo da serpente

Liv Ullmann em O Ovo da Serpente, de Ingmar Bergman (1977)

Lembrei-me do filme de Ingmar Bergman, O Ovo da Serpente, quando li que um eurodeputado neonazi alemão foi eleito, imagine-se, para a Comissão de Liberdades do Parlamento Europeu (ver aqui a folha de serviço do eleito). Ingmar Bergman considerava-o, a O Ovo da Serpente, o seu pior filme. Talvez um exagero, mas mesmo que isso seja verdade, a qualidade da sua cinematografia é tão elevada que o pior ainda é bastante bom. Em O Ovo da Serpente, Bergman filma a Alemanha da República de Weimar, mostra o lento incubar do nazismo no ambiente deteriorado dos anos vinte do século passado.

Hoje, porém, não vivemos numa época de hiper-inflação como aquela que conduziu à ascensão do nazismo na Alemanha. O perigo não nasce tanto das ruas, como das próprias instituições. São as instituições europeias - as da União e as nacionais - que, de forma sistemática, estão a desagregar o clima de paz e consenso que evita as grandes catástrofes sociais e políticas. Que um jurado e contumaz inimigo das liberdades seja, devido à força dos votos, eleito para a Comissão das Liberdades, não é apenas um episódio em que a liberdade política é complacente com os inimigos da liberdade. É um poderoso sinal de que as instituições democráticas se estão a tornar no ovo onde a serpente se forma.