sexta-feira, 11 de julho de 2014

Um exercício de cinismo



Se a política não se confunde com a moral, isso não significa que o comentário sobre a realidade social e política não deva ter um conteúdo moral. Umas das coisas que a actual crise revelou foi o profundo cinismo de muitos comentadores, a forma como se eximiram de analisar o carácter moral das decisões, fingindo que essas decisões eram meramente técnicas. Isto nada tem que ver com a tradicional divisão entre esquerda e direita. Houve gente, e não tão pouca quanto isso, que na direita assinalou o carácter imoral das políticas seguidas.

Hoje começamos a perceber melhor a raiz dessa imoralidade. Começa a chegar à opinião pública informação que desmonta a retórica do governo e das instâncias internacionais que nos atiraram para o alçapão onde nos encontramos. O próprio FMI já veio dizer que os programas seguidos na Grécia, na Irlanda e em Portugal foram errados, que teria sido melhor reestruturar as dívidas. Mas não só. Emerge, na opinião pública, a ideia de que a crise das dívidas soberanas não foi outra coisa senão uma manobra para fazer pagar aos contribuintes os investimentos tresloucados da banca europeia. Dito de outra maneira, os investidores europeus andaram a jogar com o dinheiro dos bancos. Perderam, mas os governos e as instituições europeias obrigaram os países do sul – onde parte desses investimentos tresloucados tinha sido feita – a pagar o desvario especulativo da banca europeia.

A imoralidade dos comentadores, assinalada mais acima, reside no simples facto de terem ocultado sistematicamente esta informação, de terem raciocinado a partir do pressuposto de que os verdadeiros culpados da crise das dívidas soberanas são os povos do sul, o Estado social, os funcionários públicos, as pequenas e médias empresas do sul da Europa e os trabalhadores por conta de outrem. Para tornar clara a imoralidade, imaginemos o seguinte cenário. Os juízes julgam um réu que sabem que está inocente. Sabem a sua inocência e conhecem o culpado, mas mesmo assim optam por condenar o inocente e justificar, em nome da verdade e da justiça, essa condenação. Foi que se passou em Portugal. É isto que continua a passar-se, quando se continua a legitimar o conjunto de políticas em vigor. Se a acção política não é o lugar da verdade e da moralidade, o comentário e a intervenção dos cidadãos deve ter por efeito exigir a verdade e fazer com que as elites políticas se comportem dentro dos limites da justiça. O que vimos, porém, foi, muitas vezes, um exercício nada virtuoso de cinismo e falsificação da realidade.