quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A noite mais escura

Georgia O'keeffe - Black abstraction (1927)

As montanhas morriam num lago azul. Aqui e ali, pequenos bosques ocultavam um mundo sombrio de onde subia um cântico primaveril. Seriam pássaros trazidos pelo crepúsculo ou mulheres que colhiam pequenas bagas cor de cinza. Algumas casas abriam-se sobre a enseada, mas no cais não havia barcos. Só, de cana de pesca esquecida entre mãos, um homem fitava o horizonte. Não tinha cor, talvez não tivesse roupa, pois tudo nele se fundia numa sensação de ausência. Passaram horas, o canto extinguiu-se, o sol declinou. As árvores eram apenas uma deformação na paisagem, de onde todas as cores se iam retirando. No cais continuava esquecido o pescador, a cana na mão, o olhar no poente. Quando se ouviu um barulho de pedra a cair nas águas, o crepúsculo entrou pelos olhos extasiados do pescador. Assim começou a noite do mundo. (averomundo, 2008/06/03)