terça-feira, 26 de agosto de 2014

Espalhar a indigência

René Magritte - On the Threshold of Liberty (1929)

Não se esqueça de que eu sou um cruzamento. Talvez exista ainda uma gora de puro sangue prussiano nas minhas veias poluídas. Talvez este dedinho seja o dedo de um sargento instrutor prussiano… Você, Christoph, com os séculos de liberdade anglo-saxónica atrás de si, com a Magna Carta gravada no coração, não pode compreender que nós, pobres bárbaros, tenhamos necessidade da dureza de um uniforme para nos mantermos verticais. (Christopher Isherwood, Adeus Berlim, p. 206).

Ai de nós, pobres rebentos de mil cruzamentos, que não temos nenhuma Magna Carta gravada no coração nem uniforme que nos sirva. Não arrastamos nos nosso genes os séculos de liberdade anglo-saxónica, nem sabemos o que é a dura necessidade da disciplina prussiana. Que fazer com um povo como nós? Olhe-se para o presente drama em que somos figurantes culpados e passivos. Oiço os tristes rapazolas e raparigas enxofradas que nos governam e não consigo deixar de rir. Eles, que são o fruto da mais pura bastardia política e social, imaginam – é tão fácil delirar – que governam um povo que aspira à liberdade dos ingleses sob a estrita necessidade disciplinar dos alemães. Se houvesse um módico de inteligência naquelas cabeças – ou um mínimo de informação – teriam compreendido que não só a liberdade britânica é incompatível com a necessidade germânica, como tudo isso não passa, para os exaustos descendentes dos lusitanos, de um devaneio de crianças. Mas inteligência e a informação histórica é coisa que repugna aos indigentes que tomaram conta de Portugal. Com o seu culto bastardo da liberdade inglesa e da disciplina alemã, a única coisa que fazem é espalhar, entre um povo aturdido, a sua própria indigência.