segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Ulrich Seidl, Love (Amor)


Love (Amor) inicia a trilogia Paradise (completada com os filmes e Esperança) do austríaco Ulrich Seidl. Tanto quanto dei por isso, os filmes não passaram – ou ainda não passaram – em Portugal. A relação com as virtudes teologais não deve ser tomada como mero expediente para fornecer uma unidade temática às três obras. Neste primeiro filme, a virtude teologal do amor (ou caridade) deve ser tida como o horizonte – um horizonte negativo, entenda-se – da trama romanesca. Sendo assim, convém ter presente – apesar do filme não conter qualquer referência à religião – que as virtude teologais fundamentam e animam o agir moral cristão, e são o sinal da presença e da acção do Espírito Santo no ser humano.

O amor (caridade), segundo Cristo, veio substituir, ou plenificar, a lei judaica. Como se deve entender o amor enquanto virtude teologal? Duas notas bastam. O amor é dádiva de si ao outro e o contrário da usura, a qual transforma o outro num mero objecto. O que tem isto a ver com o filme de Ulrich Seidl? Pelo conteúdo explícito, nada. Mas sem se saber isso não se percebe o filme. Teresa – a protagonista – vai para o Quénia numa viagem de turismo, na verdade numa viagem de turismo sexual. É uma mulher, na casa dos 50 anos, que vive com a filha, com um corpo longe, muito longe, do esplendor que todos os dias é sublinhado pela comunicação social como imagem ideal da beleza feminina. Na verdade, é uma mulher abandonada e, devido à configuração física e à idade, sem valor de mercado no mundo de trocas amorosas/sexuais do ocidente.

Embarca na viagem turística, mas aspira que, nesse mundo pressentido como mais autêntico e mais ingénuo, ainda alguém a possa tocar, a possa olhar nos olhar e fazer tremer o coração. Cansada, porventura, da usura da sexualidade ocidental, aspira ao amor. Vivemos, porém, num mundo globalizado e os beach boys – jovens quenianos que cercam literalmente os turistas – vêem nas matronas ocidentais uma oportunidade de negócio, a possibilidade de ganhar dinheiro fácil. A experiência queniana de Teresa – nesse paraíso africano imaginado (o filme mostra parte desse imaginário) por ocidentais depressivos – é a de uma contínua decepção. Desde a descoberta de que estava a ser vítima de exploração até, quando se deixa de romantismos e se entrega à busca da satisfação carnal, à impotência de um jovem africano alugado para a festa de anos ou à recusa de um cunnilingus por parte de um empregado do hotel. Decepção atrás de decepção.

O paraíso que se descobre através do amor é o da desilusão. África não é diferente da Europa, é apenas mais pobre. O dinheiro tomou conta de tudo. Não há dádiva amorosa. Apenas a usura que o dinheiro impõe fala e dita as regras. O que filma Ulrich Seidl em Love (Amor)? Diria que é o mundo onde virtudes teologais deixaram de animar – se é que alguma vez o animaram – o agir dos seres humanos. Seidl filma a inacção do Espírito Santo nos homens ou, numa outra perspectiva, a incapacidade destes para se deixarem tocar por aquela acção.  Em termos heideggerianos, o realizador mostra-nos a derrelicção do homem – nesta caso, de uma mulher – por Deus. O paraíso de Teresa reduz-se à pura banalidade da vida quotidiana num mundo marcado pela relação da oferta e da procura. Diria Marx, num mundo marcado pelo fetichismo da mercadoria. É esta a normalidade do mundo.


Ora a abertura do filme é uma verdadeira metáfora desse mundo. As primeiras imagens da película mostram-nos Teresa no exercício da sua profissão. Acompanhava (não se percebe bem em que papel) um enorme grupo de deficientes mentais levado a uma pista de carros de choque. A combinação deste universo da deficiência mental com o da arbitrariedade que sempre reina nesse tipo de pistas é a metáfora impiedosa – no sentido em que a desgraça da deficiência é mobilizada –, mediada pela própria Teresa, de um mundo cuja ordem é regulada pela usura dos corpos e o afastamento da graça oferecida pelo Paráclito. A normalidade do mundo não passa de uma ab-normalidade, de um exercício de deficientes num palco onde os comportamentos são caóticos e arbitrários.