sábado, 13 de setembro de 2014

A reprodução interdita

René Magritte - La Reproduction interdite (1937)

Só, num quarto de hotel, sentado diante de um espelho, oiço um concerto de Bach e escrevo: Olho-me no espelho e vejo um vulto que me olha com desdém. Noto as parecenças comigo, um ar de família, mas metade da minha idade. Ri-se com a alarvidade da juventude. E, enquanto o riso ecoa, ele penetra mais e mais no interior do espelho, afastando-se de mim, fundindo-se no vidro, ganhando um corpo roubado ao mundo das imagens. Se lhe estendo a mão, faz um esgar de desprezo e recua mais rapidamente, recusando-me a sua. Enquanto ri, leva a minha imagem e eu vejo-o cada vez mais jovem, mais insensato. Ao último acorde, o espelho quebra-se em mil fragmentos. Em vão procurei até hoje um que me devolvesse o reflexo do meu corpo.