quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A teia sombria

Claude Monte - Madame Monet on a Garden Bench (1873)

Já não pega no livro como noutros tempos. Senta-se no enorme terraço e alisa as escamas do gato que, mal a vê sentada e de olhos semicerrados, lhe salta para colo. Às vezes boceja. Abre a boca, mas a mão logo a tapa, como se o gesto fosse o resultado de um longo condicionamento herdado daqueles que vieram antes dela. Da sua estirpe, ouvia-a, um dia, sussurrar para si mesma. Se o vento desce da serra um pouco mais frio, põe um xaile pelas costas e esfrega os braços com um vigor inesperado. Não lê, apenas olha em frente, procura na paisagem um sinal, o breve sintoma de uma doença, uma sombra anunciadora, o símbolo do porvir, a lenta decomposição da vida. Olha. Na sonolência que o dia traz, ela senta-se e olha em frente, os olhos trémulos pelo excesso de luz. Depois levanta-se, dá um pequeno passeio e torna a perscrutar o horizonte. Encolhe os ombros desalentada e recolhe-se na teia sombria, a casa que a viu nascer. (averomundo, 2008/05/27, revisto)