terça-feira, 9 de setembro de 2014

Meditações Taoistas (22)

Jorge Carreira Maia - Chemins qui ne mènent nulle part. Serra de Aire (2007)

Que as pessoas temam a gravidade da morte e não partam.
Que haja barcos e carros mas não com quê carregá-los.
Que haja armas e couraças mas não razões para as exibir.
Lao Tse, Tao Te King, LXXX

Este tempo de agitada precipitação que nos coube. Partir, agir, lutar, entregar-se ao delírio da acção, mobilizar-se. Que o movimento não pare. Os homens parecem ser o fruto tardio de um anjo inquieto, de um deus tocado pela imperfeição. Herdaram essa falha e, na fatalidade que lhes coube, o seu coração nunca coincide consigo mesmo, incendiando a imaginação, orquestrando a razão, apurando os sentidos para outras e outras incursões. Vorazes colonizadores, tomaram conta da Terra e anseiam lançar colónias no espaço sideral, como se o seu lugar nunca fosse aquele onde nasceram, mas o que os espera, quando a febre toca o coração e os lança no caminho.

Se ao menos temessem a morte, se a viagem lhes surgisse na fantasia como não tendo retorno, se a guerra não fosse por si só razão para a fazer. Se tudo assim caminhasse, se a dispersão não soasse aos ouvidos como o mais belo dos cantos, seria ainda possível retornar ao velho jardim e perder-se entre árvores e rosas. Seria ainda possível esperar o crepúsculo sentado e sorver cada instante que traz, escondido no seu coração, o véu da noite. Que fazer, porém, se até a morte perdeu a sua gravidade e tudo se tornou leve e fluido? Frívolos, os príncipes atearam o desejo do longínquo no peito dos homens e estes partiram em campanha, como se vida não fosse mais do que perder-se no desconhecido e atear a guerra nos lugares onde a paz se demora.

Sábio é o homem que silencia em si o desejo de partir e descobre, no espaço que lhe coube, todos os segredos que o universo contém. Ali estão todos os rios do mundo, e os mares e as florestas. Naquela pequena aldeia, ele encontra cada metrópole que o seu olhar não viu, mas que o seu coração sabe perscrutar quando, trazida por um vento imemorial, chega a madrugada. Um dia, cuja memória há muito se dissolveu, um príncipe ainda jovem sentou-se no jardim do palácio. O seu coração tumultuava e um desejo insensato parecia impeli-lo para conhecer outros homens, outras línguas, outras terras, a beleza de outras mulheres. Se preciso fosse, segredava-lhe o sangue, haveria de levar a guerra onde ninguém ainda tivesse escutado o seu nome. 

O pai, vendo-o assim preso de tanta perturbação, olhou-o nos olhos e quedou-se ali emudecido. Olhava-o, enquanto o dia se desfazia, lentamente, da sua carga. Durante muitas horas o jovem príncipe não percebeu o que o pai estava ali a fazer. De súbito, porém, dentro da sua cabeça ecoou uma voz, uma voz que não era a do seu pai mas a voz dos pensamentos que habitavam aquele que lhe dera a vida. E ele ouviu: quando descobrires na tua mulher todas as mulheres, quando escutares no ruído do rio a voz de todos os oceanos, quando ouvires uma palavra na nossa língua e compreenderes todas as línguas, então serás rei e o trono que me pertence será teu.