quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Onzes de Setembro

Giorgio de Chirico - The Evil Genius of a King (1914-15)

O que seria a História sem o mal? Não me refiro a essas pequenas maldades que vamos perpetrando ao longo da vida, essas faltas que transformam, por momentos e segundo o nosso interesse, o outro numa mera coisa. Refiro-me ao mal massivo transportado pelo interesse político. Um mal que cai sobre as pessoas sem lhes dar possibilidade de defesa. O dia 11 de Setembro foi particularmente fecundo na produção desse tipo de mal. Um mal que planta um marco na história dos homens.

Em 1973, um golpe de estado levado a acabo pelas forças armadas chilenas, com o apoio dos EUA e dirigido pelo general Pinochet, derrubou o governo legítimo de Salvador Allende. A repressão que se seguiu foi inominável, marcada por uma crueldade feroz e um ódio muito pouco digno da vida civilizada. A importância deste golpe de estado, porém, não reside tanto na ferocidade com que se abateu sobe as suas vítimas. Golpes de estado cruéis não faltaram na América Latina. A importância reside no facto de ele ter fechado um caminho possível para o desenvolvimento da vida política. O Chile foi uma tentativa de construção de uma sociedade não capitalista através de um processo de reformas, mantendo o respeito pela constituição e pelas instituições democráticas de natureza plural. Os EUA, contudo, vieram dizer que nunca permitiriam tal coisa. O golpe de estado de 1973, no Chile, não acabou um mundo nem começou um outro. Foi muito importante porque, com ele, acabou uma ilusão. O mal nunca permitiria que um outro caminho político fosse possível sem que ele próprio, com o espectáculo da morte e do terror, fosse convocado. Dito de outra maneira, as sociedades capitalistas nunca permitiriam uma transição para além delas a não ser que fossem obrigadas pela violência e derrotadas no campo de batalha.

Em 2002, os atentados terroristas contra as torres gémeas são, obviamente, uma manifestação do mal, mas tendo agora uma motivação diferente. Não se trata de defender as sociedades de mercado mas de atacá-las no seu coração, nos próprios EUA. Não em nome de uma opção referente ao mercado, mas de uma visão religiosa do mundo e como desforra de um sentimento de humilhação civilizacional sentido pelo mundo islâmico. Se no caso do Chile o mal caiu, em primeiro lugar, sobre inocentes comprometidos politicamente (inocentes, pois não é crime participar na vida democrática da nação), no caso de 2011 os alvos foram pessoas inocentes e completamente descomprometidas. Estavam ali e a sua culpa era apenas a de estarem no local errado à hora errada.

O 11 de Setembro de 2002 marca também o fim de uma ilusão. A ilusão de que a História tinha acabado, que, paulatinamente, o mundo se iria converter ao liberalismo iluminista. Foi, porém mais do que isso. Foi o começo de uma nova era marcada pela insegurança, pelo exercício continuado do terror. Se a revolução iraniana de 1979 tinha sido o prenúncio sintomático de que algo estava a mudar, o 11 de Setembro de 2002 selou essa mudança, trazendo uma nova forma de conflito. Se até à queda do Muro de Berlim o conflito era jogado entre dois ramos do Iluminismo (o liberalismo e o socialismo), a partir de 2002 ficou claro que o Iluminismo (agora reduzido à sua vertente liberal) iria ser desafiado por uma visão tradicionalista e religiosa do mundo.

Se o golpe chileno se inscreve no conflito entre duas concepções do Iluminismo e duas formas de conceber a importância dos mercados na sociedade, o mundo inaugurado com o derrube das torres gémeas tem em si outra particularidade. Enquanto os EUA e os ocidentais combatem para abrir mercados, para entregar os bens naturais e a vida social à dinâmica da livre-empresa e dos mercados não regulados, os seus inimigos combatem em nome de Deus, motivados religiosamente, movidos pelo ressentimento civilizacional e pelo ódio às formas de vida social dos ocidentais.

O terrível dia 11 de Setembro – seja o do golpe chileno, seja o do ataque terrorista nos EUA – parece ter-se tornado um dia simbólico de manifestação do mal. E que tipo de mal se manifestou nos dois casos? Esse mal que se concretizou no assassinato de muitas pessoas reside fundamentalmente no desejo – motivado por diferentes interesses – de impor aos outros uma forma de vida que eles não querem. É irrelevante que os perseguidos sejam, na oratória dos perseguidores, esquerdistas ou infiéis, ou outra coisa qualquer. O relevante é esse desejo, nunca apaziguado no coração do homem, de impor aos outros o seu modo de vida ou de os castigar pelo simples facto de o não seguirem. Enquanto esse desejo continuar vivo no coração dos homens, o mal continuará a sua acção e a História não terá fim.