sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Os Antónios


Se fosse militante socialista, escolheria para chefe o Costa. Fá-lo-ia por dois motivos. Em primeiro lugar, António Costa tem mais experiência política. Foi ministro e é um Presidente de Câmara (a da capital) com sucesso reconhecido. Em segundo lugar, tem muito maior capacidade de penetrar no eleitorado e conduzir os socialistas à vitória. Seguro tem uma parte do partido com ele. Pode ser que ganhe a Costa dentro do partido, mas isso será um hara-kiri para os socialistas. Já se percebeu que ninguém, fora do grupo de apoiantes de Seguro, lhe dá qualquer credibilidade.

O problema que se me coloca, a mim que não sou militante de nada, não é tanto se ganha o Seguro ou o Costa. O problema é outro. O que fará, cada um deles, com a vitória que obtiver. E aqui as coisas turvam-se. Ambos são acusados de não terem sequer políticas para apresentar ao eleitorado. Esta percepção, todavia, é falsa. Tanto Costa como Seguro têm, nas suas cabeças, muito claras as políticas que farão. O que acontece é que elas não são diferentes entre si e não podem ser ditas ao eleitorado. Os socialistas precisam de votos de esquerda para ganhar, mas as políticas que têm são iguais às de Sócrates e às de Passos Coelho (que se encontra há longos meses em campanha eleitoral, não sei se notaram). Não dizem porque dizer o que vão fazer implica a perda de votos.

A disputa entre os Antónios tem tido a virtude – uma péssima virtude, diga-se – de ocultar o grande problema com que se debate o regime político português, o seu fechamento. Na verdade, nem Passos Coelho, nem Seguro, nem Costa, nem seja quem for, manda ou mandará o que quer que seja. Cumprem ordens. Não há eleições para primeiro-ministro. As legislativas, em Portugal, servem para escolher o feitor ou o capataz que aplicará aquilo que lhe for imposto pelos mercados através da União Europeia. A escolha do putativo primeiro-ministro não representa uma opção política, mas um acto de clubite partidária e de apreciação estética. Quem não pertence a nenhuma das seitas, percebe que o arco da governação é todo igual, porque assim tem de ser.

Como os Antónios – esteticamente diferentes – são politicamente iguais entre si e não muito diferentes (uma certa sensibilidadezinha social, nada de muito nítido) dos Pedros e Paulos do outro lado, como os portugueses não conferem grande credibilidade ao que está à esquerda do PS, o que esta luta entre Antónios está a preparar é o espaço político para que um demagogo, de discurso justicialista, desça à terra, envolto em nevoeiro, e faça a sua entrada triunfal na cena política portuguesa. Aguardemos.