sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A Cruz, o Crato e os corninhos do Pinho


Portugal é um país curioso. Talvez o leitor esteja lembrado de Manuel Pinho, antigo ministro da Economia, num governo de Sócrates. Acabou a carreira política numa troca de galhardetes com a bancada do PCP. No calor da disputa, não se conteve e fez uns terríveis corninhos para o deputado Bernardino Soares, salvo erro. Não apenas a honra do deputado comunista foi posta em causa, como a própria pátria terá ficado de tal maneira lesada pelos dois dedos que saíram pelas laterais da testa do ministro, que este teve de se demitir.

Olhemos para estes últimos meses da governação de Portugal. Nenhum ministro perdeu as estribeiras e fez corninhos para a oposição. Mas a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, e o ministro da Educação, Nuno Crato, são responsáveis por dois inenarráveis processos de desarticulação da Justiça e da Educação em Portugal. Processos judiciais parados, confusão nos tribunais, pessoas com a vida suspensa a aguardar que o sistema volte à normalidade. Alunos sem professores, professores colocados e despedidos, professores deslocados para um lado e depois para o outro, escolas fechadas. Um pandemónio. Tanto Teixeira da Cruz como Nuno Crato são responsáveis políticos directos por transtornos inimagináveis na vida de muita gente. Isso parece ser muito menos grave que os corninhos de Manuel Pinho.

Não digo que a demissão de Manuel Pinho, motivada pelo seu gesto, foi excessiva. Aquilo que ele fez, e o levou à demissão, em nada prejudicou os portugueses, enquanto as decisões e a gestão de Teixeira da Cruz e de Nuno Crato causaram sérios prejuízos às instituições, à sociedade e a muitos cidadãos. Demitiram-se? Foram demitidos? Não, no momento em que escrevo este artigo, leio que o primeiro-ministro afasta a demissão de Crato. Em Portugal, um ministro pode ser demitido por uma pilhéria de mau gosto, mas se afecta os cidadãos com os seus erros parece que deve ser protegido, senão mesmo louvado.

Estes episódios mostram duas coisas. Em primeiro lugar, que há muito mais tolerância para ministros de direita do que para ministros de esquerda, mesmo que seja de uma esquerda que quase não se distingue da direita. Em segundo lugar, e o mais importante, é que erros ministeriais (não digo políticas, digo erros) – fundamentalmente, se vieram da direita – que afectem ou destruam a vida das pessoas não têm qualquer sanção. Fica claro o valor que os cidadãos têm aos olhos do governo. Nenhum! Afecta-se a vida da população, paciência. O ministro pede desculpa e amanhã é outro dia. Grave, grave é se um ministro faz uns corninhos. Aí a pátria vai abaixo.