sábado, 11 de outubro de 2014

A zoada infinita

Jorge Carreira Maia - Heimat VI, TN (ESAG) (2014)

Um murmúrio infecta a tarde, cresce, zoa nos ouvidos, toma conta de casas e pessoas, abre uma brecha na textura do mundo. Se o silêncio viesse cobrir de paz estas horas, tudo se tornaria mais fácil. Alguém vai ao terraço e rega as plantas, cobre cada vaso com uma fina película de água e depois recolhe-se, como se toda a vida ganhasse sentido no acto de se acoitar na inviolabilidade do casulo. Sentado noutro terraço, um homem olha o horizonte. Conta os carros que passam e boceja, depois retoma a contagem e torna a bocejar. O murmúrio cresce enquanto ele conta, cresce indiferente às contagens humanas. É um zumbido de carvão, lasso, o rufar de uma nódoa na claridade que se ergue da terra. Penso nas infinitas contagens a que os homens dedicam a vida. Quantos dias faltam para o fim-de-semana? Quantas horas para embarcar? Quantos instantes até que a morte venha e tudo seja já nada? O discreto bocejador desapareceu engolido pela vida doméstica. Não há carros na linha do horizonte, apenas a zoada infinita a crescer como uma mancha cheia de nada que se derrama dentro de mim. (averomundo, 2008/05/22, revisto)