sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O Sínodo e a quadratura do círculo


A Igreja Católica está, com o Sínodo dos Bispos sobre os problemas da família, a confrontar-se com um problema de difícil solução, problema que a assombra desde a Reforma protestante e o posterior surgimento do que se convencionou chamar Modernidade. O problema é o da conciliação entre a autonomia da pessoa – a conquista central da Modernidade – e a tradição que se funda, para além das Escrituras, na autoridade da hierarquia eclesial. É esta autoridade, detentora do poder doutrinal, que muitas vezes choca com a autonomia da pessoa, nomeadamente em questões de moral sexual, tendendo a limitar a liberdade dos crentes.

O conflito entre autonomia do indivíduo e autoridade religiosa acabou, nos países ocidentais onde a Igreja Católica possui influência, por conduzir a um afastamento entre os princípios doutrinais da Igreja e as práticas sociais e individuais das pessoas, incluindo as dos crentes. Este fenómeno foi potenciado por dois outros. O primeiro foi a transformação das narrativas bíblicas, de carácter simbólico e mítico, em narrativas históricas e o confronto dessa suposta verdade histórica com os dados das ciências. O segundo é o da separação entre o Estado e a Igreja com o fim da autoridade política desta. A autoridade social e moral, mas também espiritual da Igreja foi assim diminuindo até chegar à actual situação de vazio religioso. Neste momento, e esse parece ser o grande problema, esse vazio começa a ser preenchido, seja pela penetração do Islão, seja pelo advento e afirmação das seitas pentecostais.

A estratégia seguida pelo actual Papa tem a sua âncora na virtude da misericórdia. Misericórdia social, com a crítica à deriva ultraliberal da economia e o apelo a um mundo mais solidário, e misericórdia moral relativa às condutas ditas desordenadas no âmbito da sexualidade e das emergentes formas de família. O problema é se este apelo à misericórdia, ao perdão e à compreensão do outro, chegará para fazer a quadratura do círculo e conciliar tradição e modernidade, autoridade da Igreja e liberdade individual. A liberdade do indivíduo não necessita de misericórdia, precisa de ser completamente reconhecida em todas as suas dimensões, incluindo a da sexualidade. Reconhecida esta liberdade, talvez a Igreja possa perceber que o seu grande problema é de dimensão espiritual e não moral, é o de abrir caminhos, no mundo moderno, para que indivíduos livres e autónomos possam realizar a transformação do homem velho no homem novo, do velho Adão no novo Cristo, para utilizar a simbólica neotestamentária. Não foi para isto que foi criada? Ou terá sido para julgar a mulher adúltera?