terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um amor perverso

Max Ernst - Oedipus Rex (1922)

Por vezes, reprovam-me, ou olham com desconfiança, o meu interesse pela política. Talvez pensem, e isso seria mais um cumprimento do que uma crítica, que é um desperdício de tempo falar de coisas que, nos dias de hoje, são consideradas pouco nobres. Há, no entanto, um equívoco. É um facto que eu tenho posições políticas e que, como qualquer outro ser humano, sou movido por interesses que nascem da tensão entre os meus desejos e as necessidades da comunidade. Mas não é isso que me interessa, nem tão pouco julgo que a política seja o lugar da produção do bem, mesmo do bem comum. O meu interesse é puramente perverso. Talvez esta perversidade nasça do amor à tragédia. O lugar do meu interesse é literário, estético, digamos.

Não há na vida social dos homens lugar mais trágico que o da política. Não é por acaso que as principais tragédias clássicas são protagonizadas por figuras políticas. A tragédia da política nasce da incomensurabilidade entre a natureza do poder e a capacidade dos homens. O poder – o poder político, note-se – exige, pela sua natureza, que aqueles que o ocupam sejam deuses, mas os candidatos são apenas homens, limitados, finitos, mortais. Houve uma altura que a distância infinita entre a exigência do poder e a natureza do governante era preenchida por um truque. O governante era declarado um deus. Com o cristianismo, o truque modificou-se. O governante já não é um deus mas um ungido por alguém em nome de Deus. Estes truques tentavam disfarçar aos olhos da plebe a verdade, a condenação e a derrota de todos aqueles que chegam ao poder. Condenação nascida da sua finitude, de uma finitude que não lhe permite cumprir os imperativos infinitos que o poder impõe.

A minha perversidade nasce do prazer trágico de ver homens como Passos Coelho, Sócrates, Seguro, Costa, Cavaco Silva e todos os outros – cá e no estrangeiro – dirigirem-se, no momento da vitória e da conquista do poder, para a sua perdição. A sua vaidade cega-os e dá-lhes uma breve ilusão. Eles riem, acenam, mas a derrota, como a morte no momento do nascimento, já começou a trabalhar por dentro da sua vitória. Se estes homens fossem apenas homens privados, a sua finitude seria apenas contrastada com a de outros seres e tarefas finitas. Expostos sob a luz do poder, a sua mediocridade – igual à de todos nós – logo se torna patente. Passados semanas, muitos já são risíveis. Mesmo os mais audazes e talentosos acabam por ser desmascarados e o ridículo da sua coragem e virtude políticas é exposto na praça pública. Não são deuses, são mortais, a que a secularização do poder roubou o truque da presença divina. A tragédia grega, a qual supostamente tratava de caracteres nobres e elevados, não nos diz outra coisa. Agamémnon e Édipo caminham nas asas da vitória para a sua própria derrota. E é este jogo entre a vaidade do homem político e a humilhação a quê está inevitavelmente condenado que me interessa. É sempre um espectáculo purificador, para seguir a lição de Aristóteles. Uma perversidade.