sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Um caso exemplar


O fenómeno político merece uma atenção especial pelos dramas que nele se representam. António José Seguro sonhou ser primeiro-ministro e, durante uns tempos, ao chegar à liderança dos socialistas, julgou que o poder lhe cairia no colo, devido ao desgaste da coligação no poder. O mundo é cruel e não perdeu tempo em tornar evidente que o agora ex-líder do PS era um político pouco dotado para aquilo que pretendia, o poder. Se a oposição que fez a Passos Coelho foi mais colaboração do que oposição, onde Seguro mostrou a sua irrelevância política foi na forma como acolheu o desafio de António Costa. Toda a estratégia que seguiu tornou patente a sua fraqueza.

Se António José Seguro fosse um político virtuoso teria reagido, ao desafio que o Presidente da Câmara de Lisboa lhe lançou, de forma completamente diferente daquilo que fez. A política tem como objectivo central a conquista do poder e aqueles que o querem devem esperar a hora exacta para agir. Tudo tem um tempo. Foi isso que António Costa fez. Esperou a hora em que o ataque ao poder no partido poderia ter sucesso e não hesitou. Seguro deveria ter respondido de imediato que sim senhor, vamos resolver rapidamente o assunto da liderança, em vez de, como uma dama ofendida, se lamentar com a traição do camarada e de ter manobrado para que a decisão do assunto demorasse uma eternidade.

Na forma como agiu, toda a gente percebeu que ele era um candidato fraco e incapaz. Fraco porque partiu, numa situação em que isso era visto negativamente pelos eleitores, para ataques pessoais ao adversário. Incapaz, porque calculou mal. Ele teria toda a vantagem em resolver o assunto num rápido congresso do partido e sem eleições primárias. Fez exactamente o contrário. Um hara-kiri. As primárias socialistas não mostram a virtude política de Seguro. Mostram o equívoco que ele era. Quem se engana de tal forma na manutenção do poder dentro de um partido menos capaz é de o alcançar no país.

O que é interessante na política não é a esperança de que ela nos resolva os problemas. Não resolve. Os nossos problemas teremos de ser nós a resolvê-los condicionando os políticos. O interessante é observar estes dramas pessoais, nos quais descobrimos muitas vezes um abismo entre as pretensões que os indivíduos alimentam sobre si mesmos e a sua verdadeira natureza e capacidade para conquistar o poder. Na política como no desporto, a vitória é o único sinal de competência. O resto é pregação moral, mas a política não é o lugar da moralidade, como Seguro percebeu no domingo passado. Um caso exemplar.