sábado, 4 de outubro de 2014

Vontade e virtude

Il Perugino - Fortitude and Temperance with Six Antiques Heroes (1497)

Foi, sem dúvida, com profunda sabedoria que os romanos deram o mesmo nome à força e à virtude. Não há, com efeito, virtude propriamente dita sem vitória sobre nós, e tudo aquilo que não nos custa nada não vale nada. [Joseph Maistre, Soirées de Saint-Pétersbourg]

Esta velha sabedoria lembrada por Joseph de Maistre, o mais famoso e consistente adversário da Revolução Francesa – um dos eminentes pensadores inimigos da liberdade, segundo Isaiah Berlin – parece, nos dias de hoje, completamente estranha. Uma ideologia hedonista fundada na gratificação imediata é a explicação mais corrente. No entanto, a desvalorização da vontade enquanto faculdade humana que precisa de ser cultivada tem um papel central no obscurecimento daquilo que, para os romanos, era já particularmente claro. A ideia de vencer-se a si mesmo ou a disposição para pagar por aquilo que é essencial foram arrastadas pela voragem que varreu a educação da vontade como elemento essencial de formação.

O mais curioso é que, se queremos compreender o infindável colapso português, temos aqui uma chave fundamental. As elites não o são porque se venceram a si mesmas, contiveram o desejo e adiaram a gratificação e o prazer. Não, as nossas elites são o fruto do privilégio, da ausência de competição e de concorrência. Vivem do bloqueamento dos outros e de uma rede de interajuda que as protege e lhes evita o esforço e a necessidade de auto-superação. Excepto em casos raros, os erros são absorvidos pelo todo nacional e os que os cometeram continuam com papéis, estatutos e privilégios idênticos aos que tinham. Portugal não tem verdadeiros liberais, pois ninguém valoriza o vencer-se a si mesmo, a ascese que permite construir uma obra, o sacrifício que dará um fruto longínquo. Os nossos liberais odeiam a liberdade. Usam o liberalismo como mero expediente para justificar privilégios pessoais e de casta.

Se a vontade das elites está corroída, assim como o seu carácter, o mesmo se passa com as camadas populares. Se não há liberais em Portugal, também não existem, na verdade, socialistas. A democracia política foi uma oferta, por vezes relutante, dos militares. A generalidade dos portugueses não a pediu e muito menos se bateu por ela. Com as excepções conhecidas, os portugueses nunca se mostraram dispostos a pagar para serem livres. Como salientou Eduardo Lourenço, os portugueses viveram o regime de Salazar sob uma “calma soberana”. Se a liberdade foi uma oferta das elites militares em ascensão, o chamado Estado Social foi uma oferta apaziguadora das elites burguesas radicais. Pela generalidade dos portugueses, nunca foi sentido como algo pelo qual pagaram (embora, o que não deixa de ser irónico, o tenham pago) e, por isso, a sua destruição não os comove e, muito menos, os movimenta para defender aquilo que deveria ser sua propriedade. Sistemas de Saúde, de Educação e de Segurança Social são vistos com coisas que, havendo-as, se usufrui e se explora, não como muita consideração, mas se desaparecerem, paciência, aquilo não lhes diz respeito. Aquilo pela qual não se sente que houve um duro preço a pagar não tem valor.

Hoje em dia, o principal foco, em Portugal e em parte do mundo ocidental, de corrosão da vontade e do carácter é o sistema de ensino, onde proliferam teorias sobre os afectos, atitudes, saberes ser, estar e fazer, e outro lixo ideológico que académicos ociosos propagam entre famílias perplexas e à deriva e classes docentes pouco críticas. A grande crise que afecta os portugueses é esta estranha ideologia que despreza a virtude da superação de si e da disponibilidade para pagar aquilo que lhe é essencial. Para que serve uma elite que vive do privilégio, da excepção e da protecção? Que felicidade pode haver num povo que não está disposto a pagar – e este pagar não é fundamentalmente monetário – por aquilo que lhe permite lançar os fundamentos da superação da sua situação? Que futuro brilhante – porque o outro, de uma maneira ou de outra, haverá sempre – pode esperar um povo no qual a vontade, tanto nas elites como nas classes populares, é frágil e incapaz de se impor imperativos que levem à superação de si mesmo e da situação em que se vive? Que futuro pode ter a vida em liberdade num sítio onde é aceite mas pela qual não se está disposto a pagar seja o que for?