segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ágil, agilizar, agilidade

Goerge Seurat - The Circus (1891)

Há palavras que valem não mil mas milhões de imagens. Por falar em imagens, imaginemos o verbo agilizar. Toda a gente sabe que agilizar é a acção, um verbo denota uma acção, de tornar ágil, de tornar mais rápido. Toda a nossa vida social - a pobre vida dos portugueses - tem na sua essência, apesar da resistência dos indígenas, a dinâmica da agilização. Por exemplo, o senhor Manuel Palos, director do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) confessou ao juiz Carlos Alexandre que tinha recebido instruções políticas para agilizar a concessão de alguns vistos "gold". Esta agilização, que parece ter aborrecido as autoridades judiciais, é inerente aos tempos modernos, nos quais tudo deve ser rápido, veloz, ágil, mesmo que não seja gracioso. Aquilo que me prende a atenção, porém, não é este triste caso que levou à detenção de onze pessoas, umas suspeitas de agilizar e outras de serem demasiado ágeis. Este caso é apenas um sinal, talvez um símbolo, da natureza do país que somos.

Para dizer a verdade, Portugal - refiro-me às instituições portuguesas - sempre se deu mal com a estapafúrdia modernidade, cheia de iniciativas, progressos, velocidades roncantes e outras arbitrariedades que nos desconfortam. Os portugueses sentiram e sentem que tudo isso lhes viola o sagrado direito a estarem descansados e poderem repousar, enquanto o tempo passa e a morte não chega. O problema é que Portugal não é a ilha de Ogígia, e os portugueses são obrigados a conviver com os amantes da modernidade e do mundo supersónico. E aqui está o imbróglio. As elites políticas, por certo porta-vozes esclarecidas do sentir popular, desenham instituições pesadas, de passo lento, pachorrentas, instituições que abominam a velocidade e execram a agilidade. Ao mesmo tempo, porém, essas elites pesadonas e conservadoras querem, no estrangeiro, parecer modernas, ágeis, velozes.

E é desta estranha contradição que o país vive. Meio mundo anda a agilizar a outra metade, num desespero surdo de parecer moderno e tornar ágil aquilo que é pesado e foi desenhado para ser muito pesado. Num país como o nosso, onde o calor rouba parte apreciável da nossa energia, metade daquela que resta serve para criar instituições mais lentas que uma tartaruga, a outra metade serve para os exercícios de agilização. O que não percebo é porque estas pessoas são agora perseguidas pela justiça, se não fizeram nada que fosse estranho à cultura instalada. Se as coisas são pesadas e lentas, então não há que agilizá-las? Não é isto que nos fará ser modernos e trazer para a nossa pequena pátria aqueles grandes homens e mulheres dotados de agilidade e que hão-de ser o modelo para as acrobacias dos nossos netos? Por amor da Santa, digam-me lá onde está o crime?