sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Conversa vazia

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Vivemos tempos conturbados e cheios de equívocos. Isso tolda a razão daqueles que deveriam ter um discernimento acima do senso comum. Não me refiro ao triste caso de Engenheiro Sócrates, o qual pertence a um mundo que já mostrou os frutos que tinha para dar. Refiro-me à visita do Papa Francisco ao Parlamento Europeu e ao protesto do eurodeputado da Frente de Esquerda e ex-candidato à presidência de França, Jean-Luc Mélenchon. Argumentou que, em nome da laicidade das instituições europeias, o Papa não tinha que discursar em Estrasburgo. Mélenchon e os seus apoiantes cometem dois erros. Um de princípio e outro estratégico.

Ao nível dos princípios, não se compreende como o discurso de um líder religioso afecte a laicidade das instituições. O Papa foi fazer catequese ao parlamento europeu? Foi obrigar os deputados a converterem-se? O Papa tem poder para anular a laicidade das instituições políticas europeias? O Papa quer acabar com a laicidade dos Estados? Todas estas questões têm uma resposta: não. A única coisa que subsiste no protesto de Mélenchon é o preconceito anticatólico, tão ao gosto de um certo republicanismo francês e de uma esquerda que vive presa a representações da religião próprias do século XIX. Este preconceito cega-o para o dever de acolhimento de alguém que, do ponto de vista religioso e social, é significativo para uma parte considerável dos cidadãos europeus.

Estrategicamente, ainda é mais incompreensível a atitude de Mélenchon. Num momento em que para a generalidade das pessoas a vida se tornou difícil senão mesmo um calvário, alienar a voz de um Papa, que se tem destacado por questionar e criticar os actuais caminhos da economia e da política, raia a irracionalidade. A voz de Francisco pode fazer muito mais pelos pobres, deserdados e até pelas classes médias em desagregação do que todos os sermões político-ideológicos a favor dos explorados e oprimidos.


O mundo mudou. Pessoas e instituições que ontem eram adversárias, senão inimigas, têm hoje, devido ao avanço avassalador das posições ultraliberais, mais pontos em comum do que de oposição. É evidente que o Papa não sonha com revoluções nem com a imposição de uma ditadura do proletariado. Como muitos moderados e como manda a doutrina social da Igreja, quer um mundo onde os pobres tenham oportunidades, onde haja mobilidade social, onde a vida de toda a gente seja decente. E isto é o mais importante. Para as pessoas é indiferente que esse mundo chegue pela mão de A ou de B. O importante é que venha. A esquerda deveria perceber isso, e deixar-se de conversa vazia e retórica do século XIX.