quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Da fonte de todo o desconsolo

Tiziano - Venus recreándose con el amor y la música (1548)

(...) de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer. (Stig Dagerman)

Para lá das múltiplas razões que Stig Dagerman aponta para essa necessidade de consolo (podem ser lidas aqui), há uma outra que entendo ser a fonte de todo o desconsolo. Não é propriamente a finitude de ser mortal, mas algo que está relacionado com isso. A impossibilidade de consolo deriva de eu me sentir sempre e já como órfão de mim próprio. A morte não é apenas o fim de um processo biológico ou do prazer de viver. Põem fim ao processo de recriação e invenção contínuas que faço de mim, no qual eu sou pai de mim mesmo, pois vou-me moldando sempre e sempre e, por esse acto poético, sendo continuamente outro. A impossibilidade de consolação nasce, deste modo, de eu saber a priori que o meu trabalho poético de auto-construção está destinado a ter um fim, a ser eternamente incompleto. O que me traz um desconsolo impossível de superar não é o desaparecimento previsível deste eu finito que sou, mas a impossibilidade de criar todos os eus que ainda não fui nem jamais virei a ser e que, no entanto, pressinto que na eternidade seriam possíveis.