domingo, 16 de novembro de 2014

Diário da paixão

Raymond Pettibon - Religión, love, ambition... (1997)

É como a febre, pensou. Aumenta conforme o dia vai passando. Ao levantar, a luz da razão espraia-se sobre o mundo e tudo parece claro e distinto. As paixões, essas secretas inclinações da alma, são vistas à transparência, e a doença que nelas se inscreve é compreendida como doença. Como é possível, perguntou-se, não ver aquilo que é tão visível? Quantos impossíveis se inscrevem naquela patologia? Uma fogueira de vaidades, pensa, alimenta o fogo passional, aviva-o e, mesmo perante o dissabor, ilumina-o e dá-lhe brilho. Mas a luz da manhã, essa fria luz fotográfica, a tudo dissipa, a tudo mostra na crueza com que a verdade desce sobre os homens. Vai ser diferente, agora, promete. E como num sistema hidráulico, a visão da razão comunica-se à vontade e esta prepara-se já para ser a justiceira que matará o dragão e curará a alma. A manhã, porém, passa rápido e a luz toma outra temperatura. Os olhos da razão começam a tremer, a vontade vacila, e todas as certezas que o novo dia trouxera desfocam-se. É uma lenta desfocagem, considerou de si para si. Uma pequena incerteza paira sobre o mundo, sombreia a pureza matinal da luz. A dúvida macula agora o coração. E as inúteis e perversas paixões agarram-se à alma, sussurram-lhe a pertença, insinuam a inelutável necessidade. Ao meio-dia tudo se incendeia sob a inclemência do sol e a razão retira-se, abandonando a alma à luz da tarde, a uma luz quente, destituída, no seu esplendor, de todo a sobriedade. As paixões uivam dentro da alma e a vontade, a que nenhuma graça auxilia, cede ao peso do dia. Quando a noite chega, o corpo febril arde sob a severidade do desejo e um estranho sentimento entrega-o à desolação da falta.