sábado, 1 de novembro de 2014

Do fundamento do amor

Roberto Matta - Le Vertige d'Eros (1944)

On croit qu’au fond de l’amour, il y a un désir physique. C’est faux. Il y a un roman que nous connaissons déjà et dont nous aspirons vainement à modifier le dénouement.
(Roland Jaccard, Sugar Babies)

A frase de Roland Jaccard não deixa de ser surpreendente. Ela substitui, como fundamento do amor, a busca homeostática de equilíbrio inerente ao desejo físico pela ideia de que o amor assenta num romance que todos já conhecemos e do qual aspiramos, em vão, modificar o desenlace. De facto, toda a narrativa é uma forma de ordenação do heteróclito da experiência sob as categorias gramaticais, semânticas e estilísticas que dela fazem parte. O que acho surpreendente não é tanto a afirmação feita, mas o facto dela ser uma confissão implícita da deserotização que atinge as sociedades ocidentais, deserotização essa concomitante com a presença cada vez mais ostensiva da sexualidade crua na esfera pública.

A esfera pública, pela sua natureza comunicativa, exige a narrativa, e o amor, agora tomado de assalto pela publicidade (no sentido kantiano do termo), só encontra a sua razão de ser numa narrativa de carácter iterativo e romanesco. É sempre a mesma história, uma história que todos conhecemos, cujo desenlace nos desagrada, mas que, devido à nossa impotência (e aqui não será descabido falar de impotência sexual), é impossível de modificar. A confissão da deserotização do mundo feita por Jaccard não reside, porém, apenas na consideração do fundamento do amor como narrativa. A alternativa, para fundamento do amor, entre desejo físico e narrativa é já ela indiciadora dessa deserotização, indiciadora de que uma experiência mais profunda do amor se desvaneceu, mesmo enquanto mera ideia reguladora.

Tanto ao nível do desejo físico como da narrativa, encontramo-nos na esfera apolínea da ordem. A alternativa proposta por Jaccard inscreve-se num conflito, talvez aparente, entre a ordem biológica, dada na busca do equilíbrio homeostático, e a ordem cultural, dada na linguagem e na submissão às suas categorias. Para além da esfera apolínea do equilíbrio, a qual faz todo o sentido na esfera pública e política, podemos ainda pensar numa esfera dionisíaca, a qual emergirá da tensão que percorre Eros, esse filho da abundância e da carência. O fundamento do amor não será tanto o equilíbrio – aquele que se busca pela satisfação do desejo físico ou pela vivência iterativa de uma narrativa – mas o desequilíbrio dado pelo excesso presente tanto na abundância como na falta presentes em Eros. E é este fundamento que a frase de Roland Jaccard já não reconhece, e neste não reconhecimento está toda história de uma sexualidade cada vez mais crua e menos erótica.