quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Em Santa Maria

Sobre autor não identificado - Antiga Igreja de Santa Maria do Castelo

Há um momento em que se descobre que é demasiado tarde. Onde está a maldita fronteira que separa o remediável do irremediável? Durante anos, meditei sobre esse momento em que a qualidade das coisas muda e tudo segue um outro e irremediável caminho. O que aprendi, pergunto-me, dessa estranha meditação? Quando naquele dia entrei pelo portão de ferro, ouvi o ranger das folhas secas sob o peso do meu corpo. Restos de caixotes pelo chão, pilhas de tijolos ao abandono, ervas que cresciam sob o reino da incúria. A porta, a velha porta de madeira, rangeu. Ao abrir-se, deixou ver uma sombra, um leve vulto, as paredes salitradas, o chão carcomido. Um vulto, pensei, não sem inquietação. Quem será? Um anjo, um homem, um animal perdido? Avancei com cuidado na sombria nave. Sentia um olhar frio sobre mim, quase o podia tocar. A penumbra mal era rasgada pela luz que entrava pelas frestas. Se parava, ouvia o voo dos pássaros sob o tecto em ruínas. Quando olho para o lugar onde estivera, durante séculos, o altar, um requiem desaba sobre mim. O Dies irae ressoava na minha impenitência e um arfar confundia-se com a respiração que saía de mim em torvelinho. Olho em frente. O vulto lá está, volta-se, lentamente, e eu oiço Dies iræ, dies illa, e vejo-o a mover-se como se tivesse um corpo – solvet sæclum in favilla –, um corpo feito de névoa e vazio – teste David cum Sibylla –, um corpo de cinza e sangue – quantus tremor est futurus. E eu tremo no silêncio da Igreja que agora se desfaz – quando judex est venturus –, na sentença abominável que se abre diante de mim - cuncta stricte discussurus! – e me mostra a minha face no vulto que se dissolve entre os escombros que me arrastam para o abismo.