terça-feira, 25 de novembro de 2014

O princípio de esperança

José Bellosillo - Esperanza (1982)

Tenho na memória uma citação avulsa de uma frase de Hegel ou atribuída a Hegel. Não consigo agora situá-la já no contexto da obra do filósofo alemão. A frase diz o seguinte: quando a Ideia muda a realidade não resiste. Não me vou prender à hermenêutica dos conceitos aqui usados. Prefiro olhar para a frase como um princípio de esperança. Toda esta conversa vem a propósito da tomada de posição de Wolfgang Münchau, um colunista conservador do Finantial Times. Apesar de conservador, Wolfgang Münchau reconhece que sobre o problema das dívidas soberanas quem tem razão é a esquerda radical. Diz mesmo que quem defenda que a Europa precisa de mais investimento público e de reestruturar a dívida deve votar em partidos como o Die Linke (Alemanha), Syriza (Grécia) e Podemos (Espanha). O que significará, digo eu, que em Portugal deverá votar no Bloco de Esquerda ou no Partido Comunista. 

Münchau refere que é uma tragédia que os partidos da Internacional Socialista, mal cheguem ao poder, se tornem respeitáveis. O que significará esta respeitabilidade? Significa alinhamento pelas posições neo-liberais e anti-keynesianas. O interessante, porém, reside no facto de os partidos daquilo a que chamamos esquerda radical serem, na verdade, partidos social-democratas, muito mais keynesianos do que marxistas. A esperança não reside neste apelo atípico ao voto nessa esquerda radical, mas no facto da ideia neoliberal estar a estilhaçar-se e a reemergir uma nova forma de conceber o papel do estado e da economia na sociedade. Essa nova forma não está apenas presente nessa esquerda radical, mas em amplos sectores da sociedade, assim como em parte importante da Igreja Católica, onde o actual Papa tem insistido (na visita de hoje ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, voltou a insistir) na necessidade de alterar as políticas económicas, de forma a defender a sacralidade da pessoa. Lentamente, a visão do mundo ultra-liberal mostra-se na sua negatividade e uma nova visão pode - digo pode e não mais do que isso - erguer-se, de forma que a actual e triste realidade não resista.