quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O rio e a história

Kazimir Malevich - River in the Forest (1908 ou 1928)

Na torrente de montanha que corre para o vale, o jovem Goethe via uma juventude fresca e impetuosa, que se precipitava na planície tornando a terra fecunda. Na época do Sturm und Drang, das esperanças pré-revolucionárias, o rio era o símbolo do génio, da energia vital e criadora de progresso; no tomo quinto da Encyclopédie, o «enthousiasme» é comparado com um regato ténue que cresce, flui, serpeia, se torna cada vez maior e mais potente e por fim se lança no oceano, «depois de ter feito ricas e fecundas as terras felizes que banhou». Mas algumas décadas mais tarde, Grillparzer, o poeta da Áustria oitocentista, em versos de tom completamente diverso sonhava deter o fluir de um regato, via-o crescer mas também perder-se na história, deixar a pequena mas harmoniosa paz da sua infância límpida e tranquila, agitar-se e confundir-se até se diluir no mar, no nada. [Cláudio Magris, Danúbio, p.32]

De Goethe a Grillparzer há um sentimento comum. O rio é a metáfora fundamental para falar da História, desse enigma do passar do tempo e da passagem, com ele, das coisas e instituições. Se em Goethe a História é fecunda, se no Romantismo se incensa a impetuosidade do rio que corre, se se admira o progresso, se se olha benevolentemente, com a Enciclopédia, o «entusiasmo», com Grillparzer é uma outra e antagónica realidade que emerge. A História é a mãe do niilismo, o rio que flui apenas corre para o nada. Por isso, Grillparzer está longe de afectar entusiasmo, aquele entusiasmo que certamente vem do Iluminismo, com o devir histórico. Sonhava antes um sonho impossível, sonhava deter o fluir do regato. Curiosamente, a crítica ao entusiasmo nasce dentro da própria Filosofia iluminista, dentro do pensamento do progresso, nasce em Kant. Talvez Kant tenha pressentido, na libertação do Homem da menoridade de que ele próprio é culpado, o programa do Iluminismo, uma sombra ameaçadora. Ele viu-a no entusiasmo que se apossou dos actores da Revolução Francesa. Aquilo que ele não viu, ofuscado ainda pela ideia do progresso moral da humanidade, foi mais tarde entrevisto por Nietzsche, no conceito de niilismo. Podemos, assim, formular mais claramente aquilo que dá que pensar. Todo o progresso é um progresso em direcção ao nada. O rio nasce e progride até deixar de ser rio. O progresso tornou-se a ilusão mais persistente da modernidade, uma espécie de justificação do devir da História, como se ela precisasse de uma justificação do seu acontecer, como se o devir nunca fosse inocente. O progresso é a expressão de uma razão culpada. (averomundo, 26/10/2009)