sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Tempos interessantes


Um provérbio chinês, talvez uma maldição, diz que, se não gostarmos de alguém, devemos desejar-lhe que viva tempos interessantes. Para o povo chinês, que possui o taoismo como cultura de fundo, tem todo o sentido este desejo. A vida boa e digna é aquela que repousa na estabilidade das instituições, na tranquilidade da vida social, na serenidade com que os indivíduos guiam a sua existência. Ora, tendo em  conta estes padrões, podemos dizer que alguém não gosta mesmo nada de nós. Temos a infelicidade de viver tempos interessantes, demasiado interessantes.

O referendo na Catalunha, a atenção com que foi seguido, por exemplo, em Itália, a desagregação da Ucrânia e a guerra civil que por lá vai lavrando, a afirmação da Rússia e da China como potências fundamentais, os acontecimentos no Iraque e na Síria, a ebulição do mundo islâmico e a ameaça que isso representa, a actual situação na Igreja Católica, a qual parece estar a acordar forças – para o bem e para o mal – que ninguém suspeitava vivas, as transformações económicas do mundo, os graves problemas ambientais provocados pelo homem, os desenvolvimentos científicos e tecnológicos, todo este conjunto de coisas é um sinal, terrível sinal, de que estamos a viver tempos interessantes.

Contudo, no que se está a passar, há uma novidade relativamente ao que é suposto no provérbio chinês. Neste, os tempos interessantes são sentidos como uma excepção dos tempos estáveis e tranquilos onde a vida vale a pena ser vivida. O que se sente, nos dias de hoje, é que, daqui para o futuro, todos os tempos serão tempos interessantes, cada vez mais interessantes. Isto é, serão cada vez mais propícios à generalizada infelicidade dos homens, como se estes tivessem perdido definitivamente o rumo e o bom senso tivesse desaparecido.

Talvez esta sensação já tivesse sido vivida noutras épocas, as quais serviram de charneira entre um mundo que morria e outro que começava. Se olharmos, porém, com atenção para aquilo que poderia ser a emergência de um mundo novo, de um mundo que viesse trazer uma nova estabilidade e que pusesse fim à crescente intranquilidade do presente, se olharmos com atenção, repito, descobrimos qualquer coisa de monstruoso. Tudo o que emerge como novo torna-se, quase imediatamente, obsoleto e substituível por outra novidade que se vai esgotar ainda mais rapidamente. E isto não se passa apenas ao nível dos dispositivos tecnológicos. Passa-se em tudo, como se o mundo dos homens trouxesse agora dentro de si um irreprimível desejo de fim. Sim, são tempos interessantes os nossos. Demasiado interessantes.