quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A melancolia erótica

Jean-Léon Gérôme - Interior Grego (1848)

O filósofo de origem sul-coreana Byung-Chul Han tem um livro com o título A Agonia de Eros composto por sete pequenos ensaios. No primeiro, “Melancolia”, questiona as leituras sociológicas da deserotização do mundo. Há algo mais, nesse destino de Eros, do que a ilimitada liberdade de escolha ou as possibilidades infinitas que se abrem ao desejo sexual, segundo alguma sociologia actual. Não é apenas o excesso de oferta de outros que conduz à crise do amor, mas também a erosão do outro, o qual desaparece num “excessivo e ensimesmado narcisismo do mesmo”, sublinha ele como tese.

A questão pouco terá a ver, a não ser na aparência, com a multiplicidade de ofertas, com a liberdade de escolha no mercado sexual ou com a questão do afundamento do self  no lago do narcisismo e a consequente dissolução do outro. É preciso ir mais longe do que vai, neste ensaio, Byung-Chul Han. Tudo isso são efeitos que não têm em consideração o próprio Eros. A agonia de Eros, a sua exaustão, nasce da sua libertação. Ao libertar-se definitivamente, pelo menos nas nossas sociedades e com todas as reservas que merece uma afirmação definitiva, o Eros das garras apolíneas que o subjugavam e continham a sua força propulsora, ele foi obrigado a expandir-se, e nessa expansão começou a perder a potência que fazia dele o assombramento dos homens.

A verdadeira agonia de Eros, o estado moribundo em que se encontra, deve-se ao fim daquilo que lhe opunha resistência. Quando se fala da libertação que a revolução sexual iniciada nos anos sessenta do século passado trouxe, não se compreende muito bem o que se está a dizer. A libertação não significa a emancipação dos seres humanos dos velhos preconceitos tidos como castradores do desejo. A libertação significa literalmente o fim da resistência que Eros tinha que vencer para se manifestar e triunfar. Ora essa resistência fazia parte da razão de ser do próprio Eros. Desaparecida, a ele não restou senão a expansão ilimitada até ao fim das suas forças, o que o conduziu à exaustão e à agonia onde se encontra, para contentamento das almas puritanas.