quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Cristianismo hoje, para quê?

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Já que estamos em época natalícia, convém retornar a uma questão essencial: O Ocidente, em geral, e a Europa, em particular, ainda precisam do Cristianismo? Não será a religião cristã um produto obsoleto e, por isso mesmo, descartável? Vivemos numa era em que tudo se dissolve rapidamente, os produtos, os costumes, as funções económicas e os papéis sociais. A modernidade tem no seu núcleo central este princípio destruidor e transformador do modo de vida dos homens. É natural que muitos pensem que, numa época como a nossa, uma religião nascida há dois mil anos seja um anacronismo inútil ou mesmo prejudicial ao triunfo do que, a cada instante, se apresente como moderno.

Perante o actual estado de coisas, defendo a tese oposta. O Cristianismo é essencial para o Ocidente e, em particular, para a Europa. É um factor de conservação. Há que defendê-lo e ter a esperança que, onde a indiferença ou a negação religiosa tenham posto em causa o núcleo central dos valores cristãos, possa haver uma reversão. Três argumentos para defender esta tese.

Em primeiro lugar, se o mundo moderno, criado pelo Ocidente, tem uma natureza destrutiva, se tudo é, pela acção social e económica, constantemente destruído, então é necessário a existência de um núcleo de valores e de instituições que resistam, permaneçam e sirvam de referência aos homens e de elo entre as gerações. Esse núcleo, no mundo ocidental, é-nos dado pelo Cristianismo e, como pólo institucional, pelas Igrejas, nomeadamente a Igreja Católica.

Em segundo lugar, os valores fundamentais que ainda presidem à nossa cultura têm a sua origem no Cristianismo ou, se originados no mundo greco-latino, foram por ele retrabalhados e tornados disponíveis pela acção de dois milénios das Igrejas cristãs. Sem o Cristianismo, o nosso núcleo de valores – valores que inspiram coisas tão diversas como a caridade cristã, os devaneios marxistas sobre o homem novo, a separação entre a Igreja e o Estado, etc., etc. – perde sentido, tornando ainda mais precária a forma como nós, ocidentais, nos relacionamos com a vida e o mundo.

Em terceiro lugar, não há, a longo termo, vazios religiosos. Se o Cristianismo desaparecer, outra religião acabará, cedo ou tarde, por ocupar o seu lugar, matando os valores com que temos sido educados, matando, essencialmente, a liberdade, um dos valores centrais que o Cristianismo ajudou a implantar e a respeitar no mundo ocidental.


Depois da desilusão com as ideologias – essas pseudo-religiões políticas –, não resta ao homem ocidental, para permanecer como tal, senão o Cristianismo. Um bom Natal para todos.