quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O prazer e a transparência

René Magritte - O princípio de prazer (1937)

A sociedade da transparência é inimiga do prazer. Na economia do prazer humano, o agrado e a transparência não se encontram unidos. A economia libidinal é estranha à transparência. Precisamente, a negatividade do segredo, do véu e do encobrimento espicaça o apetite e intensifica o prazer. Assim o sedutor joga com máscaras, ilusões e formas aparentes. A coacção da transparência elimina espaços de jogo do prazer. A evidência não admite sedução, mas somente um procedimento. O sedutor toma por caminhos que são tortuosos, ramificados e enredados. (Byung-Chul Han, A Sociedade da Transparência, p. 29)

O aparecimento da figura literária de D. Juan parece datar da primeira metade do século XVII. Se aceitarmos a tese, aliás bastante plausível, de que a transparência e a sociedade da transparência são inimigas do prazer, a emergência da figura de D. Juan no início da modernidade, sendo contemporânea da aventura filosófica de Descartes e da sua exigência de evidência (a transparência no conhecimento), pode ser lida como uma profecia e, ao mesmo tempo, uma nostalgia.

D. Juan, esse tortuoso sedutor que escolhe caminhos enredados e ramificados, é o sintoma da transição de uma sociedade fundada no segredo e na opacidade - a antiga sociedade medieval em desconstrução adiantada - para a sociedade da transparência. Vai demorar alguns séculos a chegada de uma sociedade que se funda na reivindicação da transparência absoluta, mas ela dava já, nos inícios do XVII, os seus primeiro passos. E esses primeiros passos podem ser lidos - agora que conhecemos o desenrolar da história - como um ataque sem precedentes ao prazer. O desvelar completo do segredo do outro, essa nudez com que, hoje em dia, os corpos se expõem é ainda uma resposta à exigência de clareza e distinção contida em Descartes. D. Juan é, assim, uma espécie de profeta da queda do princípio de prazer.

Como em toda a profecia, também nesta existe uma nostalgia, a nostalgia de uma ordem anterior, uma ordem imaginada, certamente, na qual a própria realidade se organizava de forma a dispensar a tortuosidade do sedutor, pois ela mesma era tortuosa e, por isso mesmo, fundada no princípio do segredo, desse véu que espicaça o desejo e leva o prazer ao paroxismo. Esta ordem era, por certo, imaginária, mas constituía-se como um ideal regulador da vida. D. Juan simboliza também a nostalgia por uma ordem ideal que estava em processo acelerado de destruição, para dar lugar a outra ordem ideal, a da pura transparência e, concomitantemente, à deserotização completa da vida dos homens.