terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Perplexidades perante o Cristianismo

Capa do CD In Paradisum do The Hilliard Ensemble

Gosto dos homens do Antigo Testamento: são vingativos e tristes. Foram os únicos que pediram contas a Deus, cada vez que quiseram, e que não deixaram escapar nenhuma ocasião de lhe lembrar que Ele é impiedoso, e que eles não têm mais tempo para esperar. Naquele tempo, os mortais tinham instinto religioso, hoje apenas fé – e por enquanto. O maior defeito do cristianismo foi não ter sabido endurecer as relações do homem ao seu Criador. Excesso de soluções e excesso de intermediários. O drama de Jesus adocicou o sofrimento e retirou todo o direito à virilidade nas questões religiosas. Antigamente, levantava-se os punhos para os céus; hoje, só o olhar. (Cioran, Le Crépuscule des Pensées)

O excerto de Cioran está ligado a uma de duas perplexidades que há muito o Cristianismo, nomeadamente o católico, fez nascer em mim. A primeira perplexidade, o nível rasteiro, pimba e piroso da arte (arquitectura, música, escultura e pintura) que serve a vida da Igreja. A liturgia é de uma pobreza franciscana. Toda a vida religiosa (há excepções, claro) está envolvida em elementos estéticos absurdos. Como é que uma religião que deu origem à catedral gótica, à grande pintura da renascença e posterior, à música de Tomás de Luís de Victoria e de Giovanni Pierlugi da Palestrina, chegou a um tão grande grau de decadência? Perante tal tipo de mau gosto, não admira que Deus se tenha retirado para longe.

A segunda perplexidade, a que se prende com o texto de Cioran: o carácter pouco viril do Cristianismo tal como me foi dado a conhecer. É preciso, porém, ter algum cuidado. Foi este mesmo Cristianismo que se casou com o Império Romano, que ordenou o mundo medieval e que sustentou as Cruzadas. Mas, se compararmos Cristianismo e Islão, nota-se claramente uma diferença, o Cristianismo é essencialmente uma religião de mulheres, apesar destas estarem excluídas do acesso à ordenação sacerdotal, enquanto o Islão é uma religião de homens. O discurso sacerdotal é, no Cristianismo, fundamentalmente afectivo. No Islão, o discurso é racional, muitas vezes, de uma racionalidade política. A Igreja Católica acabou por se tornar num lugar de exclusão dos homens, isto é, do elemento varonil e da racionalidade a ele associada.

Mais do que a cultura profana, foi a própria cultura da Igreja que abriu caminho para a decadência da religião no Ocidente, ao tornar-se um espaço de mau gosto estético e de vivência religiosa emasculada. O triunfo do sentimento conduziu, muitas vezes, ao sentimentalismo mais atroz e repugnante. O sagrado, para além do bom gosto, também precisa de homens, daqueles que, como diz Cioran, levantam os punhos para os céus. (averomundo, 2007/03/09)