sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A ciência, um exemplo


Gostaria de terminar o ano com uma crónica de esperança. Para além da crise que se eterniza, haverá sintomas de uma esperança no futuro? Infelizmente, não. As sociedades modernas possuem o seu núcleo central de desenvolvimento (e de esperança) no conhecimento científico. Portugal, durante muito tempo, foi nessa área um país periférico. Nos últimos vinte anos, porém, sob a direcção do ministro Mariano Gago, o país fez um esforço notável para se aproximar daquilo que se fazia na Europa. À qualidade da decisão política correspondeu um contínuo esforço das universidades e centros de investigação. O reconhecimento da qualidade do trabalho científico em Portugal foi sendo paulatino, mas consistente. Bolsas avultadas e prémios internacionais começaram a ser notícia. A visão de Mariano Gago parecia adequada e tudo indicava que ela deveria ser continuada e aprofundada, pois, nessa área, o país estava no bom caminho.

Pura ilusão. Aquilo que tinha sido a grande obra dos governos socialistas – governos medíocres noutros aspectos – parece incomodar os actuais detentores do poder. Olhando para estes anos de consulado de Nuno Crato, um observador imparcial será levado a concluir que, no campo da ciência, a principal estratégia do actual governo foi a de encontrar um caminho para destruir a obra edificada nos governos anteriores. E sempre que, nas sociedades actuais, se quer destruir alguma coisa que incomoda, a melhor forma é criar um sistema de avaliação abstruso e pouco claro. Nestes casos a avaliação não serve para melhorar, mas para destruir. Foi o que aconteceu na ciência. O processo liquidou metade dos centros de ciência existentes e destruiu uma parte significativa da base científica nacional, aquela que tinha permitido criar uma elite reconhecida internacionalmente.

O poder actual diz que apenas quer centros de excelência, como se isso fosse possível. Para haver um núcleo de excelência é precisa uma ampla base que, não sendo excelente no seu todo, gerará a elite através da sua dinâmica. Sem essa base, não há qualquer possibilidade de excelência. Esta é a natureza das coisas que o actual poder, no seu afã de destruição, quer ignorar. O que mais choca é o espírito sectário que preside à nossa vida política. Aquilo que foi bem feito por outros terá de ser destruído, como se Portugal tivesse começado com o actual governo ou a política científica apenas pudesse sair da cabeça de Nuno Crato. Com este tipo de mentalidade, valerá a pena falar de esperança? Um bom 2015, apesar de tudo.