segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A desvalorização do passado

Pseudo-Boltraffio -  Narciso (1500-1510)

Numa sociedade narcísica - uma sociedade que dá uma crescente proeminência e encorajamento aos traços narcísicos - a desvalorização cultural do passado reflecte não apenas a pobreza das ideologias prevalecentes, que perderam a sua ligação com a realidade e abandonaram a tentativa de a dominar, mas a pobreza da vida interior narcisista. Uma sociedade, que fez da "nostalgia" uma mercadoria comercializável no mercado cultural, rapidamente repudia a sugestão de que a vida no passado era, de uma forma notável, melhor que a vida de hoje. [Christopher Lasch (1991). The Culture of Narcissism - American Life in An Age of Dimishing Expectations. New York: Norton, pp. xvii]

A desvalorização cultural do passado, desvalorização que é um traço das sociedades contemporâneas, significa o silenciamento das vozes que nos falam a partir de uma experiência consumada. Problemático, não é apenas o facto de que, numa ou noutra ocasião, a vida pudesse ter sido melhor que a actual e nós não percebermos essa eventual bondade. Nem é apenas a negação daquilo que o passado tem de modelar e prototípico relativamente ao presente. Problemático é a incapacidade de escutar. O passado nunca pôde escutar o presente, mas o presente e os vivos nesse presente sempre encontraram forma de escutar os mortos. Ao evacuarmos, através de um narcisismo consumado, a capacidade de escutar os nossos mortos, abrimos o caminho para que aqueles que vêm depois de nós, e não me refiro apenas àqueles que hão-de vir amanhã, mas também aos que já cá estão há muito, sejam incapazes de nos escutar, ou de se escutar entre si. A morte dos mortos, isto é, o esquecimento cultural do passado, não mata apenas e de novo os mortos, mata também os vivos, por um acintoso transfert. Para a cultura narcísica em que vivemos, cada geração fecha-se sobre si e olha para as anteriores como mortos que ainda não sabem que o são. (averomundo, 2010/01/20)