terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A perversidade do sucesso

Paul Klee - Un genio sirve un pequeño desayuno (1920)

Há em certas notícias agradáveis uma perversidade atroz. Por exemplo, nesta. É agradável que neste pobre país três pessoas (Cristiano Ronaldo, Vihls e Maria Pereira) sejam reconhecidos pela revista Forbes como pertencendo ao restrito núcleo dos mais bem-sucedidos com menos de 30 anos. Também é agradável saber que Harold Bloom, no livro Génio recentemente traduzido, indicou três portugueses (Luís de Camões, Eça de Queirós e Fernando Pessoa) entre os 100 autores mais criativos da literatura universal. Não indicou um quarto, José Saramago, porque este ainda era vivo aquando da redacção e edição original do livro. 

O problema destas coisas é que os nossos génios e os nossos bem sucedidos não são o resultado de um nível médio elevado da nossa vida e da nossa cultura, mas casos excepcionais, mais excepcionais do que aquilo que deveriam ser. O brilho destas estrelas acaba por desfocar o olhar. Um viajante que não conhecesse a realidade, ao ouvir que Portugal possui três dos maiores génios da literatura universal, pensaria que os portugueses seriam um povo extraordinariamente culto, um povo cujos poderes, ao longo dos séculos, muito se preocuparam com a educação dos seus cidadãos. O que melhor poderia explicar esse facto inusitado de um povo tão pequeno produzir, em número apreciável, tão grandes escritores?

A perversidade de tudo isto reside no facto de que os nossos génios são-no graças a eles e apesar de de serem portugueses. Entre eles e o nível cultural, social e de realização pessoal dos outros portugueses há um profundo e negro abismo. Abismo por vezes cruzado, aqui e ali, por estrelas menores e tão ocasionais como os maiores astros. O problema destas nomeações está no facto delas serem usadas para ocultar a triste realidade que é a nossa. O último dos génios indicados por Bloom, Fernando Pessoa, morreu em 1935. Nessa data, uma percentagem substancial do povo português não sabia ler nem escrever. Não foi um povo de letrados que produziu três génios literários. Foram três génios que fugiram de um mundo de analfabetos, que não tinha sequer as competências básicas para poder apreciar o produtos dos génios. E está aqui toda a perversidade destas notícias sobre o sucesso dos portugueses.