sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Esquerda e direita radicais


A política grega continua a trazer lições inusitadas. Na passada terça-feira o jornal francês Le Monde noticiava o apoio de Marine Le Pen, a líder da Front National (extrema-direita francesa), ao Syriza (esquerda radical grega, aparentado vagamente com o nosso equívoco e decadente Bloco de Esquerda). O Syriza continua à frente nas sondagens para as eleições de domingo, e Marine Le Pen afirmou que gostaria de ver o partido de Alexis Tsipras vencer as eleições.

Podemos simplificar o problema dizendo que os extremos se aproximam e, como seria este o caso, acabam por se tocar e confundir. Será isso que os partidos tradicionais gregos, ligados à governação dos últimos decénios, afirmarão, numa tentativa desesperada de conseguir a vitória nas eleições de domingo. Isso, porém, faz parte do jogo partidário, e não passa de uma ilusão, ilusão que acaba por esconder a natureza do que se está a passar na Europa.

Em primeiro lugar, a divisão tradicional entre direita e esquerda, com o fim da experiência comunista no leste da Europa, começou a abrir fissuras e ameaça desmoronar-se. Não no sentido pretendido pela direita autoritária tradicional ou mesmo liberal, as quais argumentavam que a divisão entre esquerda e direita abria um conflito no todo social, na unidade nacional. O desmoronar a que estamos a assistir não nos conduz à unidade, antes pelo contrário. O que acontece é que a velha, simples e muito conveniente divisão entre esquerda e direita explodiu em múltiplas divisões, as quais já não seguem, em muitos casos, a divisão tradicional. O mundo tornou-se muito mais complexo e a realidade política acompanhou-o, começando a dinamitar as velhas categorias e baralhando a forma de compreender o fenómeno político.

Em segundo lugar, a política europeia, pelo radicalismo liberal e pelo fanatismo austeritário, teve o condão de abrir espaços onde esquerdas e direitas fora do arco da governação encontraram um terreno fértil para encontrar eleitorado. A destruição, na Europa, do pacto social-democrata e do Estado social, aliada à corrupção crescente na esfera do poder, gerou a possibilidade de organizações políticas antagónicas reivindicarem medidas e políticas semelhantes. Na verdade, o crescimento da direita nacionalista francesa ou da esquerda radical grega são o sintoma de uma mesma nostalgia, a nostalgia das antigas políticas europeias, onde o desenvolvimento económico, ao contrário de hoje em dia, tornava todos mais ricos. Lentamente, iremos assistir à explosão das antigas divisões e descobrir, estupefactos, novas e inesperadas alianças. Já não estamos no século XIX nem no XX. Os tempos mudaram.