terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O grande jogo

Giorgio de Chirico - O grande jogo (1971)

O que se esconde por detrás dos acontecimentos que nos levam do ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo às grandes manifestações de domingo passado? O que se esconde por detrás das afirmações à outrance do direito à liberdade de expressão, ou daquelas que relativizam a dimensão do ataque, e procuram explicações económicas e sociais para justificar as opções dos que enveredaram pelo terrorismo, ou daqueles que, pública ou privadamente, comemoraram os ataques de Paris como uma grande vitória? O que está, de facto, em jogo, para além de todas estas aparências que a comunicação social não cessa de despejar em cima de nós?

Será um vício trazido pela formação em filosofia, pelo menos daquela que se inscreve na tradição que tem em Platão uma das suas grandes referências, distinguir nas coisas e nos acontecimentos o domínio da aparência e o domínio da realidade. A hermenêutica da suspeita não é uma criação de Marx, Nietzsche e Freud. Remonta pelo menos à antiguidade clássica grega, à filosofia pré-socrática, à distinção parmenídia entre via da verdade e via da opinião. Esta formação, ou deformação, leva-nos sempre a perguntar, no espectáculo dos grandes acontecimentos, como os da semana passada, o que se esconde por detrás do jogo das aparências. 

O grande jogo, o jogo real e efectivo, trava-se entre os princípios do Iluminismo (o humanismo e os direitos do homem, o racionalismo, o individualismo) e os princípios de um contra-iluminismo (o teocentrismo, a sobreposição da fé à razão, o comunitarismo). Este jogo não começou agora nem teve sempre os mesmos protagonistas, mas desde o século XVIII, com a afirmação do projecto Iluminista em França, que o jogo se foi tornando cada vez mais intenso. A princípio, o jogo era uma actividade que opunha o Ocidente a si mesmo, mas com a globalização dos séculos XX e XXI, o jogo alargou-se ao mundo inteiro. O Ocidente é agora visto em massa como o lugar do Iluminismo, tendo o contra-iluminismo encontrado no mundo islâmico a sua base mais activa de apoio. Isto é uma simplificação, pois há no Ocidente correntes contra-iluministas e, por certo, haverá correntes iluministas fora do Ocidente.

Não estamos perante uma guerra de civilizações, se olharmos para esta a partir de uma perspectiva de conflito de raças ou de um conflito identitário. Estamos, porém, perante um conflito em torno do que é o homem, de qual o seu lugar no mundo, do que é uma vida boa e digna de ser vivida. As partes em confronto reivindicam uma perspectiva universal e propõem racionalidades diferentes na interpretação do mundo e na organização da vida. É isto que está em jogo e que as aparências tendem a esconder. Escondem também uma outra coisa. Escondem que iluministas e contra-iluministas apresentam os seus princípios como absolutos e exclusivos, afirmando que a vitória de uns princípios implicará o desaparecimento de outros. Numa linguagem hegeliana, poderíamos dizer que este conflito resulta da não dialectização dos princípios das partes em confronto. O que nós nunca queremos crer, porém, é que os princípios, essas abstracções em forma de ideias, levam homens a morrer e a matar por eles. Ideias e  princípios estão longe de ser coisas inócuas. Quem não perceber isto não perceberá nada do que se passou em França.